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América Latina e Caribe: Tio Sam põe as barbas de molho

A fragilização das estruturas socioeconômicas latino-americanas e caribenhas, acarretada pela pandemia da , dificultou ainda mais as já precárias condições de vida de grande parte da população da região. Politicamente, isso tem resultado em guinadas à esquerda em vários países, o que abre novas oportunidades para o alargamento da influência de potências autoritárias extracontinentais, como e, principalmente, China — além, é claro, de fomentar um ambiente propício ao alastramento do crime organizado. 

Como destaca o renomado latino-americanista R. Evan Ellis, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Exército dos Estados Unidos, em entrevista a Mercy A. Kuo, da revista The Diplomat (www.thediplomat.com), o establishment de política externa e segurança nacional de Washington, D.C., vê com preocupação frequente o ‘trânsito’ cada vez mais amplo dessas potências na Argentina, no , na Bolívia, no Peru e no Chile. sem esquecer os regimes esquerdistas despóticos longamente consolidados em Cuba, na Venezuela e na Nicarágua. No jogo de soma-zero da geopolítica, cada avanço chinês ou russo na América Latina e no Caribe corresponde a um recuo da “cooperação com os Estados Unidos em áreas críticas como [repressão ao] narcotráfico, crime organizado transnacional e imigração”. Como não poderia deixar de ser essas angústias repercutem no Congresso norte-americano. Em fevereiro deste ano, três semanas antes da invasão da pela Rússia, o senador Marco Rubio (Republicano da Flórida) e seus colegas Robert Menendez (Democrata de Nova Jersey) e Bill Cassidy (Republicano da Louisiana) apresentaram o o projeto de lei S-3589 (“Estratégia de Segurança para o Hemisfério Ocidental”). A proposição foi despachada ao Comitê de Relações Exteriores do , onde aguarda deliberação. Segue um sumário dos pontos que considero mais importantes: 

– “[. . .] a prejudicial e nefasta influência na América Latina e no Caribe dos governos da República Popular da China e da Federação Russa traz riscos para” os povos da região e “o interesse nacional dos Estados Unidos”;
 

– isso exige que a América “amplie o seu engajamento no Hemisfério Ocidental [. . .] fortalecendo a cooperação em matéria de segurança entre os países” hemisféricos, de modo a “facilitar o comércio, os , o treinamento e a assistência humanitária, no curto e no longo prazos”; 

– “em apoio ao estado de direito, à democracia e aos direitos humanos na região, os Estados Unidos devem manter capacidades de segurança adequadas e dedicadas à América Latina e ao Caribe”; 

– os alvos do projeto incluem, além das organizações criminosas e terroristas internacionais, “atores estatais”, o que requer como “exercícios de treinamento militar com países parceiros na região” e “iniciativas de educação militar”, a exemplo do “programa de Treinamento Educacional Militar Internacional do Departamento de Estado”; e

– para o financiamento e a operacionalização da proposta, o texto do projeto prevê uma “avaliação minuciosa dos recursos necessários ao desenvolvimento de tal estratégia”, no marco de “um plano a ser executado” já no “ano fiscal de 2023”, bem como a prestação periódica de esclarecimentos “pelos secretários de Estado e de Defesa aos Comitês de Relações Exteriores e de Forças Armadas do Senado, de Assuntos Exteriores e de Forças Armadas da Câmara de Representantes”. 

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Ellis observa que, desde 2005, empresas estatais chinesas, com apoio do governo da República Popular da China e do Partido Comunista Chinês, já contabilizam investimentos da ordem de 160 bilhões de dólares na região. O comércio da América Latina e do Caribe com a China já atingiu a marca de 314 bilhões de dólares; e os investimentos na região, sob a forma de financiamentos concedidos pelos bancos estatais chineses, 136 bilhões. Para a segurança alimentar de sua imensa população e o suprimento de matérias-primas às suas indústrias, a China investe numa multiplicidade de segmentos: mineração (do prosaico minério de ferro ao estratégico lítio), /gás. pesca, florestamento/reflorestamento, logística e transportes. Entre os megaprojetos bancados por capitais chineses visando justamente a essa garantia de abastecimento de commodities ao mercado do Império do Meio, sobressaem os seguintes: o porto de Chancay e as minas de Las Bamas (Peru) e a ferrovia Maya (México).

Na medida em que companhias norte-americanas, europeias e japonesas procuram reforçar seus caixas no pós-pandemia vendendo ativos nos mercados latino-americanos, o ‘vácuo’ resultante vai sendo preenchido por empresas chinesas (estatais ou privadas) mediante fusões & aquisições, assinala o analista do Exército americano.

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Um reator nuclear da classe “Hualong-1”, orçado em 8 bilhões de dólares, será construído na Argentina. E no caso brasileiro, os avanços chineses em geração e transmissão de energia elétrica são impressionantes. Estudo do Centro de Desenvolvimento Global da Universidade de Boston, realizado no ano passado, revela que, além das gigantes State Grid e China Three Gorges (CTG), outras 14 empresas do setor elétrico chinês, inclusive do segmento de energia nuclear, operam no País, com propriedade exclusiva ou compartilhada sobre 304 usinas, totalizando 16.736 megawatts, ou quase um décimo do consumo brasileiro (investimentos até 2019: 36,5 bilhões de dólares). Também em 2021, como informa o Observatório da Política Externa e da Inserção Internacional do , vinculado à Universidade Federal do ABC paulista, em razão da paradeira econômica global imposta pela pandemia, a única entrada de capital chinês no Brasil registrada pelo China Global Investment Tracker foi da ordem de 2,94 bilhões de dólares, valor do pagamento pela coparticipação (10%) das petroleiras CNOOC e CNPC na exploração do campo offshore de Búzios, em associação com a Petrobras. .A Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível para Concertação e Cooperação, co-chefiada pelos vice-presidentes dos dois países, deverá lançar o Plano Decenal Brasil-China (2022/2031).

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No front diplomático, a China se mostra cada vez mais bem-sucedida em sua ofensiva para excluir Taiwan definitivamente do cenário da região: em dezembro último, a Nicarágua rompeu relações com Taipé, caminho a ser seguido dentro em breve por Honduras, Haiti e pequenas ilhas do Caribe, todos esses países ávidos pelo ‘ouro de Pequim’…. 

Tio Sam tem mesmo razão em botar suas barbas de molho no Hemisfério Ocidental!

Por Paulo Kramer, cientista político e especialista da Fundação da Liberdade Econômica

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