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Guerra da Ucrânia: teria o ministro britânico Boris Johnson vontade de ser Margaret Thatcher?

Publicamos recentemente um artigo no qual utilizamos recurso metafórico, chamado Guerra nas Estrelas, para compreendermos um fenômeno encontrado no conflito atual entre e . Por  nas Estrelas queremos nos referir à geopolítica dos anos 1980 quando os intensificavam altos gastos em seu orçamento militar para forçar a União Soviética a fazer a mesma coisa. O problema é que Moscou tinha recursos financeiros bem inferiores em comparação aos despendidos pela Casa Branca naquele momento. Esta metáfora continua nos sendo útil para compreendermos o desgaste que as potências ocidentais jogam sobre a russa, ainda bem modesta, para continuar uma guerra, já bastante custosa, e que poderia levar o governo de Vladmir Putin à crise de legitimidade e, posteriormente, ser derrubado em favor do Ocidente.

Caso este recurso simbólico seja conveniente podemos continuar a usá-lo para analisar algo relacionado também aos anos 1980, a certas personalidades que ganhavam vulto em virtude da oposição que faziam aos soviéticos no âmbito da Guerra Fria. O presidente Ronald Reagan, dos Estados Unidos, a primeira-ministra Margaret Thatcher, do Reino Unido, e o papa João Paulo II, cada um ao seu modo, eram os mais expressivos do anticomunismo.

Vamos nos prender à pessoa de Thatcher. A ministra fizera dobradinha com Reagan para oferecer dificuldades geopolíticas e econômicas contra a União Soviética, até que o secretário-geral do Partido Comunista, Mikhail Gorbatchev, jogasse a toalha por falta de condições econômicas para manter o poder soviético e com força, como havia sido nos anos 1960 e 1970. Vale dizer, a “era de ouro” da União Soviética sob o comando de Leonid Brejnev.

Thatcher, dentro de determinado prisma, era mais impulsiva e voluntariosa contra o chamado império do mal (como denominava Reagan a Oriental) do que o próprio mandatário norte-americano. A ministra britânica fazia questão de marcar posição e dianteira, pois considerava que tal ação seria necessária para engrandecer um importante país europeus, que não era mais considerado grande potência, de fato, e que fazia eco àquilo que os Estados Unidos projetavam para dobrar a vontade dos Estados socialistas em geral.

Por ser assim, a dama de ferro tomava iniciativa estratégica na escolha e manutenção de determinados armamentos e na escolha de itens econômicos que pudessem, ao mesmo tempo, levar vantagem para Londres e constranger Moscou. Amostra disso foi o boicote que Thatcher ordenou para que a União Soviética não tivesse acesso a material petrolífero, sensível, de fabricação britânica, que pudesse ajudar a indústria daquele país. Enquanto o Kremlin não baixasse a guarda na concorrência internacional, Grã-Bretanha, Estados Unidos e o Vaticano não dariam trégua aos soviéticos.

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Na busca de dar relevância à política britânica, Thatcher tencionou abrir caminho diferente nos meios (mas semelhante na “vontade nacional”), do mesmo modo que havia feito a Alemanha Federal, entre 1974 e 1976, com a iniciativa denominada ostpolitik. Tratava-se da atenção que o chanceler da época, Willy Brandt, direcionava aos vizinhos do leste europeu, sob controle da União Soviética, bem como a algumas partes do antigo Terceiro Mundo. De certa forma, a proposta de Brandt era abrir caminho entre as superpotências, Grã-Bretanha e França, para uma Alemanha grandiosa economicamente, mas diminuída sob o aspecto estratégico por conta do seu passado belicista e dos duros engessamentos da Guerra Fria.

Não havia dúvida de que o chanceler tentava fazer daquela Alemanha ponto para apoio econômico e material, com jointventures, para também intensificar relações proveitosas com a vizinha-irmã Alemanha Oriental e demais países do leste, inclusive a União Soviética. Ao ser mais dura no trato, Thatcher procurou fazer a mesma coisa, mas com os pesados instrumentos da política do poder para dar prestígio a um Reino Unido fatigado por guerras.

O arrazoado acima, com Thatcher, é para poder observar as intenções, realizáveis ou não, do atual primeiro-ministro britânico, sua visão sobre a guerra na Europa, e suas possíveis consequências. Boris Johnson foi prefeito de Londres e chegou ao 10 Downing Street por esgotamento de quadros, uma vez que o Partido Conservador havia entrado em desgaste, entre outras coisas, por conta do blefe que o Gabinete anterior dera a favor da retirada britânica da economia europeia, o Brexit de 2017, mas sem acreditar que ele seria aprovado por escolha popular. A maioria da sociedade britânica deu o Sim ao Brexit e Cameron deixou o poder.

Se a saída da Grã-Bretanha da economia europeia serviu para dar expectativa ao nacionalismo econômico do país, já que havia queixas sobre a morosidade da burocracia geral de Bruxelas, passa a ser crível dizer que a intenção de Johnson é reposicionar o poder britânico no âmbito da segurança coletiva continental, da OTAN, sob o poder norte-americano — mas sem querer abrir, obrigatoriamente, linha de competição com os Estados Unidos.

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Johnson acredita que o atual argumento estratégico europeu não se completa porque Alemanha e França são vacilantes e não apresentam vigor contra aqueles que são os reais perturbadores do Ocidente: Rússia e China. O premiê crê, no fundo, que Paris e Berlim estão mais sensíveis com a causa eurasiana do que com os valores da Europa e dos Estados Unidos. Isto pode ser em função da hipótese que, no final das contas, o centro dinâmico do capitalismo vai de vento em popa para a Bacia do Pacífico, para a máquina industrial da Ásia. E nisso, Alemanha e França podem preferir privilegiar o pragmatismo econômico para sobressaírem em meio a um Ocidente que se esgota por excesso do emprego militar.

Será que o Reino Unido ajudaria a destroçar a OTAN para que tivesse dianteira na política internacional? Pode ser que Johnson faça mesmo isso, considerando um item importante: o país ainda resguarda um bom quantum de poder político, com armas nucleares e tecnologia militar, e valoriza sua posição como Estado fundador da Aliança Atlântica, sem ter duvidado de sua missão. Do ponto de vista econômico, o mandato de Thatcher ajudou a restabelecer um traço histórico da política britânica: o retorno de Londres (a antiga City) na condição de relevante praça financeira internacional, com influência global. De certo modo, a capital inglesa voltaria a dividir com Nova York a preeminência de cidade global.

Mas no atacado, teria o Reino Unido gordura bastante para bancar sua intenção de grande potência com poder de decisão? No quesito militar, o país parece oferecer algo, sobretudo com sua marinha de guerra. No produto interno bruto, o Reino Unido não teria larga vantagem para tanto, visto que sua economia seria análoga à francesa e à italiana, mas abaixo da alemã.

Se, efetivamente, tais peculiaridades são suficientes para a elevação do poder britânico é algo que está aberto e no campo da hipótese. Porém, os sinais deixados por Johnson nos permitem pensar que isso seja seu objetivo sobre a Europa continental. É claro que a Grã-Bretanha sozinha não consegue angariar posição na qual pensa ter direito; ela necessitaria da cooperação ou anuência dos Estados Unidos para isso. Mas independente dessas questões, Londres acredita que o acúmulo de poder histórico que possui, credenciaria o país para liderar a transformação na qual colocaria em segundo plano, ainda mais, França e Alemanha.

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Uma das queixas de Boris Johnson é a de que França e Alemanha tem menos empenho e compromisso que a Polônia contra a Rússia. Paris e Berlim se limitariam a enviar material bélico, mas nada de se comprometerem estrategicamente para resolver o conflito que pode jogar por terra o espírito moderno do que vem a ser ocidental. Será que o premiê britânico pensa no arranjo continental, na visão de cada Estado-membro, nas decisões?

Sobre isso, é curioso que Johnson queira impulsionar a armada britânica para tomar responsabilidade no acompanhamento de navios graneleiros no Mar Negro. Embarcações que carregariam a safra agrícola ucraniana, de e milho, por exemplo, para o mercado internacional, tido por carente desses insumos. O problema é saber se essa operação teria a anuência da OTAN ou se foi dela que partiu essa ideia, uma vez que os russos podem estranhar.

Johnson apresenta algo semelhante, guardadas as devidas proporções, com o governo de George W. Bush, no momento em que se constituía bloco de apoio para adentrar militarmente ao Iraque e Afeganistão devido aos ataques terroristas do 11 de Setembro de 2001. Naquele ano, a Casa Branca demonstrava descontentamento com França e Alemanha porque não se sentiam à vontade de se filiarem a favor dos Estados Unidos naquela aventura.

Bush, de imediato, emendou que havia a velha Europa, França e Alemanha, reticente e vacilante; e havia a nova Europa, com Polônia e Espanha, que não titubearia em acompanhar os Estados Unidos na luta pela democracia, justiça e liberdade. Parece que há em Johnson o mesmo raciocínio para buscar apoio no qual a preeminência caberia ao Reino Unido. A questão é esperar o amadurecimento que o tempo pede para ver se isso tudo é congruente.

Por José Alexandre Altahyde Hage, professor do Departamento de Relações Internacionais da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (EPPEN) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

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