
- Ranking da Kearney mostra que o país não figura entre os 25 mais atrativos para o capital internacional em 2024.
- Especialistas apontam burocracia, ruído institucional e falta de previsibilidade como principais entraves à retomada dos investimentos.
- Índia, Vietnã e México ocupam espaço deixado pelo Brasil com ações estratégicas e incentivos ao capital produtivo.
O Brasil encerrou 2024 em uma das piores posições do ranking global de atratividade para investimento estrangeiro direto (IED), segundo levantamento da Kearney, publicado nesta quarta-feira (2) pelo jornal Valor Econômico. O país ficou fora do top 25, consolidando-se como um destino de baixa prioridade para grandes investidores internacionais. Este é o terceiro ano consecutivo em que o Brasil não aparece na lista.
A pesquisa, considerada referência global no setor, consultou 500 executivos de empresas com faturamento superior a US$ 500 milhões. A ausência do país entre os destinos prioritários representa um sinal claro de desconfiança em relação ao ambiente de negócios, à estabilidade institucional e à previsibilidade regulatória.
Ambiente doméstico afasta investidores globais
O levantamento da Kearney aponta que fatores internos, como insegurança jurídica, burocracia excessiva e alta carga tributária, continuam desestimulando o capital estrangeiro. Mesmo com o crescimento de setores como energia renovável e agronegócio, o país ainda perde espaço para economias emergentes com maior clareza regulatória e menos volatilidade política.
Especialistas ouvidos pelo Valor destacam que o Brasil não conseguiu transformar seu potencial econômico em confiança institucional. Além disso, a imagem internacional do país sofre com a percepção de que reformas estruturais avançam lentamente, o que reduz o apetite de investidores que buscam previsibilidade.
Portanto, mesmo diante de oportunidades em infraestrutura, saneamento e digitalização, o país permanece distante das prioridades de grandes fundos e corporações multinacionais.
Reformas econômicas não surtiram efeito imediato
A ausência do Brasil na lista ocorre mesmo após a aprovação da reforma tributária em 2023 e os esforços do governo federal em retomar parcerias internacionais. Segundo analistas, essas medidas ainda não produziram efeitos práticos suficientes para mudar a percepção do mercado externo.
Além disso, a falta de uma política industrial clara, o ruído político constante e as incertezas fiscais contribuem para manter o país em desvantagem. A dificuldade de garantir segurança jurídica nos contratos públicos e a lentidão na concessão de licenças também afastam novos projetos, especialmente em setores estratégicos.
Ainda que o governo defenda o avanço de reformas e a estabilidade macroeconômica, investidores esperam ações concretas que promovam segurança e facilitem o retorno sobre o capital investido. Portanto, a melhora na imagem do Brasil depende de mais do que discursos ou promessas.
Concorrentes emergentes ganham espaço
Enquanto o Brasil perde relevância, outros países em desenvolvimento vêm se destacando. A Índia, por exemplo, avançou posições no ranking da Kearney graças à digitalização da economia, simplificação de impostos e melhora na infraestrutura. O Vietnã também tem atraído atenção pela política industrial voltada à exportação e mão de obra qualificada.
Na América Latina, o México se consolidou como principal destino regional de IED. O país aproveita sua proximidade com os Estados Unidos, incentivos ao setor manufatureiro e acordos comerciais robustos para captar investimentos em áreas como tecnologia, energia e mobilidade elétrica.
Com isso, o Brasil se vê isolado em um cenário global cada vez mais competitivo. Analistas alertam que, se não houver uma mudança estrutural na condução da política econômica, o país continuará na retaguarda do investimento global nos próximos anos.
Perspectivas exigem mudança estratégica
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) defendeu que o governo lance um plano nacional de atração de investimentos estrangeiros. A entidade propôs medidas como incentivos fiscais, desburocratização e garantia jurídica para grandes projetos.
Segundo a CNI, a ausência do Brasil no ranking da Kearney deve ser tratada como um alerta. A entidade argumenta que o país precisa agir com rapidez para reverter essa percepção negativa e retomar sua posição de destaque no cenário global.
Portanto, a retomada da confiança dos investidores internacionais depende de ações coordenadas entre Executivo, Legislativo e setor produtivo. Caso contrário, o Brasil corre o risco de desperdiçar oportunidades em um momento em que o mundo busca diversificação de mercados e estabilidade para seus ativos.