- Brasil poderia se beneficiar da melhora global, mas decisões do governo dificultam o cenário
- Pressão fiscal e políticas expansionistas elevam risco de inflação e juros mais altos
- Banco Central pode levar a Selic para até 15% caso a situação não melhore
O Brasil poderia se beneficiar da melhora global dos mercados e da percepção de que a política monetária está no caminho certo. No entanto, medidas que aceleram a economia em vez de permitir uma desaceleração podem colocar o país em risco.
Essa foi a análise de Felipe Guerra, executivo-chefe de investimentos da Legacy Capital, durante um evento do BTG Pactual.
Medidas econômicas e risco de inflação
O governo tem adotado iniciativas que pressionam a inflação e aumentam a atividade econômica, como a ampliação do programa “Pé de Meia”, o aumento do alcance do “Vale Gás” e a possível liberação de recursos do FGTS para quem fez o saque-aniversário.
Essas ações, segundo Guerra, impedem a desaceleração necessária para estabilizar a economia.
Caso o governo insista em acelerar os gastos, o Banco Central terá que elevar ainda mais os juros para conter o descontrole fiscal.
“Se precisa de mais juros para viabilizar o que está gastando, a dívida diverge rapidamente”, alertou Guerra.
Inflação e política monetária sob pressão
O Brasil enfrenta vulnerabilidades evidentes. A inflação não está mais ancorada e algumas projeções já chegam a 6%, podendo atingir 10% mesmo com juros próximos de 15%. O crescimento acelerado dos gastos fiscais, entre 5 e 6 pontos percentuais ao ano, agrava o problema.
Rodrigo Carvalho, sócio-fundador da Clave Capital, destacou que a melhora recente dos ativos brasileiros foi impulsionada pelo cenário internacional, e não por mudanças na política econômica do país. A desaceleração global mostrou que os canais de transmissão da política monetária continuam funcionando, impactando os mercados.
Cenário de juros e impacto no mercado
Segundo cálculos baseados no modelo do Banco Central, a Selic precisaria atingir 16% ou 17% para que a inflação convergisse para a meta de 3% no terceiro trimestre de 2026. No entanto, Carvalho acredita que esse cenário extremo não se concretizará.
Para ele, o Comitê de Política Monetária (Copom) deve seguir com um aumento de 100 pontos-base (1 ponto percentual) na Selic, conforme sinalizado em dezembro. Além disso, o BC pode elevar a taxa em mais 50 ou 75 pontos em maio, encerrando o ciclo próximo de 15%.
Falta de reação fiscal agrava o problema
Carlos Woelz, sócio-fundador da Kapitalo, afirmou que a situação fiscal do Brasil continua fragilizada. O país precisa de um ajuste de 3 pontos percentuais no saldo primário para equilibrar a dívida, mas o governo ignora essa necessidade.
Sem um plano fiscal sólido, a responsabilidade recai sobre a política monetária, forçando o Banco Central a manter juros elevados por mais tempo.
“Subir juros é uma responsabilidade, mas sem um plano fiscal adequado, a sustentabilidade da dívida fica ameaçada”, alertou Woelz.