
O Banco Master encerrou 2024 com um lucro líquido de R$ 1,07 bilhão, praticamente o dobro do apurado em 2023. O Resultado chama a atenção do mercado, mas também levanta questionamentos importantes sobre a estrutura de endividamento da instituição, que teve crescimento acelerado e passou a operar com uma dependência significativa de captações.
Nos últimos 12 meses, o banco mais do que dobrou os seus ativos, saltando de R$ 36,1 bilhões para R$ 63 bilhões. Um dos pontos mais sensíveis do balanço está na origem dos recursos captados pelo banco. Em 2024, os depósitos totais subiram de R$ 30,5 bilhões para R$ 49,8 bilhões. O número chama atenção não apenas pelo volume, mas pela composição desses depósitos.
O banco também reportou um retorno sobre patrimônio (ROE) de 28,50% em 2024, superando, por exemplo, outros players do mercado como o BTG (que fechou 2024 com um ROE de 23%).
Risco de Rolagem
Os depósitos interfinanceiros dispararam de R$ 3,1 bilhões para R$ 18,3 bilhões, enquanto os depósitos a prazo (majoritariamente CDBs) passaram de R$ 26,8 bilhões para R$ 30,8 bilhões. Esse modelo de captação tem custo elevado, ainda mais em um cenário de alta da Selic, que encerrou o ano em 12,25% ao ano, com possibilidade de atingir 15% em 2025.
A equação financeira do Banco Master tem se mostrado cada vez mais desafiadora.
De acordo com as demonstrações financeiras divulgadas, a instituição possui R$ 9,2 bilhões a receber no curto prazo. No entanto, enfrenta a necessidade de quitar R$ 12,9 bilhões em depósitos — o que evidencia um déficit de R$ 3,7 bilhões a ser coberto para viabilizar a rolagem dessas obrigações.
Especificamente em relação aos Certificados de Depósito Bancário (CDBs), o Banco Master terá os seguintes compromissos de vencimento nos próximos 12 meses:
– Até 30 dias: R$ 337,6 milhões
– De 31 a 60 dias: R$ 333,4 milhões
– De 61 a 90 dias: R$ 502,9 milhões
– De 91 a 180 dias: R$ 979,6 milhões
– De 181 a 360 dias: R$ 3,15 bilhões
Esse montante representa um valor superior à receita anual registrada em 2024 (R$ 4,1 bilhões); ou quase 100% do patrimônio líquido da instituição (R$ 4,7 bilhões).
Outra consequência direta dessa dependência de instrumentos de dívida é vista nas despesas da intermediação financeira, que cresceram fortemente. Em 2024, o banco teve um custo de R$ 4,71 bilhões com operações de captação no mercado — um aumento de 33% em relação a 2023.
Outro ponto que chama atenção do mercado é o possível risco de liquidez do banco: os ativos líquidos imediatos (caixa + aplicações interfinanceiras) somam apenas R$ 466 milhões (menos de 1% do total do passivo.
Esse dado evidencia a dependência de renovação de captação e baixa liquidez imediata, o que expõe o banco a riscos em caso de resgate em massa ou mudança de percepção de risco
Fluxo de Caixa Operacional Negativo
O fluxo de caixa das atividades operacionais foi negativo em R$ 2,2 bilhões, enquanto o caixa só foi sustentado graças a R$ 945 milhões em letras financeiras subordinadas e R$ 1,6 bilhão em aporte dos sócios.
Além de sustentar a evidência de que o crescimento do banco está sendo sustentado por captação de mercado e aportes de capital (um modelo arriscado se não houver geração de lucro operacional recorrente no futuro), esse modelo de expansão exige uma vigilância contínua sobre a rentabilidade real do negócio.
Afinal, em um ambiente de juros elevados e competição acirrada, captar recursos a um custo alto só se justifica se houver geração sustentável de lucro e crescimento saudável da carteira.
Caso contrário, o que hoje se apresenta como um ciclo virtuoso de crescimento pode rapidamente se tornar uma armadilha financeira. O público e os reguladores devem acompanhar de perto a origem dos resultados e a qualidade dos ativos, pois, sem geração orgânica de caixa, a solidez institucional fica cada vez mais atrelada à disposição dos sócios de manter o banco capitalizado — o que, em última instância, é um risco estrutural
O Lucro de 2024
Mesmo com essas pressões, as receitas com operações de crédito do Banco Master saltaram para R$ 4,2 bilhões (alta de 54%), enquanto os ganhos com títulos e valores mobiliários chegaram a R$ 2,5 bilhões.
Também houve um crescimento relevante nas receitas com cessões de carteira de crédito (R$ 2,1 bilhões) e nas participações em coligadas, especialmente após a incorporação do Banco Voiter e do Will Bank.
No entanto, boa parte desses resultados vem de operações não recorrentes, o que exige cautela ao projetar a sustentabilidade dos lucros nos próximos ciclos.