
Parece roteiro de filme de terror financeiro, mas aconteceu de verdade no Reino Unido. A história serve como um lembrete doloroso dos riscos – e das peculiaridades – do mundo das criptomoedas. A inglesa Ellie Hart, de 34 anos, decidiu fazer aquela famosa “limpa” em casa, organizando tudo durante uma faxina. No meio da arrumação, entre papéis velhos e objetos sem uso aparente, ela acabou descartando um item que pertencera ao seu marido, Tom: um simples pen drive. O problema? Aquele dispositivo, que parecia obsoleto e sem valor, escondia uma verdadeira fortuna digital: o equivalente a £ 3 milhões (cerca de R$ 22,5 milhões) em Bitcoin (BTC).
Segundo o relato da própria Ellie ao site Daily Star, a criptomoeda estava armazenada neste pen drive, que, por sua vez, estava largado dentro de uma gaveta comum, sem nenhuma etiqueta ou indicação de que continha algo tão valioso. “Estava numa gaveta com recibos velhos, baterias descarregadas e fios emaranhados. Presumi que fosse um dos meus pen drives antigos da época da escola e joguei fora sem pensar duas vezes“, revelou a professora. A falta de identificação e a aparência comum do dispositivo levaram ao erro fatal.
O desastre só veio à tona quando Tom começou a procurar desesperadamente pelo pequeno dispositivo. “Ele me perguntou se eu tinha visto um pequeno pen drive preto que ele usava para guardar seu Bitcoin. Eu congelei. Eu soube instantaneamente o que tinha feito. Meu coração simplesmente afundou. Eu disse a ele: ‘Acho que joguei fora.’ Eu me senti absolutamente mal”, desabafou Ellie, descrevendo o momento de pânico e culpa.
A partir daí, começou uma corrida contra o tempo, infelizmente já perdida. O casal ainda tentou desesperadamente recuperar o dispositivo milionário, revirando o lixo na esperança de um milagre. “Nós até esvaziamos sacos de lixo doméstico. Havia uma mistura horrível de pânico e esperança, mas, no fundo, eu sabia que já era tarde demais”, confessou Ellie. O pen drive, e a fortuna nele contida, se perderam para sempre no sistema de coleta de lixo.
Profundamente arrependida, Ellie classifica o incidente como “o pior erro que já cometeu”. A dor é ainda maior ao saber que Tom havia comprado aqueles Bitcoins em 2013, numa época em que a criptomoeda valia uma fração mínima do seu valor atual. A ideia original era que aquele investimento inicial se transformasse em algo grande no futuro – o que de fato aconteceu, mas a riqueza se tornou inacessível por um descuido doméstico.
O Cemitério Bilionário do Bitcoin: Mais de Cinco Petrobras Perdidas
A história de Ellie e Tom, embora dramática, está longe de ser um caso isolado. Ela ilustra um fenômeno massivo e pouco discutido no universo cripto: a perda permanente de acesso a enormes quantidades de Bitcoin. Estimativas de 2024 da respeitada casa de análise de dados on-chain Glassnode apontam que cerca de 7,8 milhões de unidades de Bitcoin – o que representa quase 40% de todo o BTC emitido até hoje – estão efetivamente perdidos para sempre.
Traduzindo isso em valores, estamos falando de uma fortuna inacreditável: aproximadamente US$ 530 bilhões (ou R$ 2,6 trilhões!) em criptomoedas que nunca mais poderão ser movimentadas. Para se ter uma ideia da magnitude desse valor, ele é superior ao valor de mercado de gigantes globais como a Tesla e o banco JPMorgan, e equivale a mais de cinco vezes o valor de mercado da Petrobras (PETR4). É como se um tesouro gigantesco estivesse trancado em cofres cuja chave foi jogada fora.
Mas como tanto Bitcoin “some” assim?
A principal razão é a perda da chave privada de acesso. De forma simplificada, cada endereço de Bitcoin possui duas “chaves”:
- Chave Pública: Funciona como o número da sua agência e conta bancária. Você pode compartilhar isso para receber fundos.
- Chave Privada (ou Seed Phrase): É a sua senha mestra, geralmente uma sequência de 12 ou 24 palavras aleatórias. Quem tem acesso a essa chave privada tem controle total sobre os Bitcoins naquele endereço. É aqui que mora o perigo.
Se você esquece a senha do seu banco online, basta ligar para o banco, ir a uma agência ou usar o aplicativo para criar uma nova. O Bitcoin, no entanto, é descentralizado, o que significa que não é controlado por nenhuma empresa ou governo central. Portanto, não existe um “SAC do Bitcoin” ou um “gerente” a quem recorrer se você perder sua chave privada. Perdeu, perdeu.
Rudá Pellini, cofundador da Arthur Inc., ilustra a dificuldade de recuperar uma chave perdida: “Ao perder a chave privada ou a sequência das palavras, perde-se o acesso ao ‘cofre’. A título de comparação, a dificuldade de se encontrar uma chave privada aleatoriamente é de 1 chance em 10⁷⁷. Seria como decidir encontrar um átomo específico em todo o universo”. Ou seja, é matematicamente impossível adivinhar ou “hackear” uma chave perdida.
Importante: É crucial entender que esse risco de perda por esquecimento de senha afeta principalmente os investidores que optam pela autocustódia, ou seja, aqueles que guardam suas próprias criptomoedas em carteiras digitais privadas (hardware wallets como pen drives especiais, ou software wallets). Para usuários que deixam suas criptos em corretoras (exchanges) ou investem através de fundos e ETFs de Bitcoin, a responsabilidade pela segurança das chaves privadas é da instituição custodiante, e o acesso geralmente é feito por login e senha tradicionais (com mecanismos de recuperação).
Por Que as Chaves se Perdem? Os Motivos Mais Comuns
Além do simples esquecimento, existem outros motivos frequentes para a perda de acesso aos Bitcoins:
- Excesso de Cautela: Como investidores de cripto são alvos constantes de hackers (como o caso recente do brasileiro que perdeu R$ 1 milhão após um ataque), muitos anotam suas chaves privadas em papel ou até gravam em placas de metal e escondem muito bem. O problema é quando escondem tão bem que nem eles mesmos conseguem encontrar depois.
- Falha de Hardware: Assim como o pen drive do marido de Ellie, HDs de computador podem quebrar, pen drives podem corromper, e se a chave privada estava salva apenas naquele dispositivo físico, o acesso pode ser perdido.
- Morte do Proprietário: Se o dono dos Bitcoins morre sem deixar instruções claras ou acesso às chaves privadas para seus herdeiros, a fortuna digital fica inacessível para sempre. Um caso famoso foi o do investidor Mircea Popescu, que morreu afogado em 2021, deixando para trás um tesouro estimado em mais de US$ 2 bilhões (R$ 10 bilhões) em BTC na época, aos quais ninguém mais teria acesso.
Essas histórias e dados ressaltam a enorme responsabilidade que vem com o poder da autocustódia de criptomoedas. A máxima “seja seu próprio banco” também significa “seja seu próprio segurança” – com todas as consequências que isso implica.