
- Empresas e bancos ainda enfrentam barreiras operacionais, o que limita a contratação de crédito pelos trabalhadores.
- Especialistas alertam que o estímulo ao consumo em meio a um cenário de inflação pode comprometer a política monetária.
- Secom planeja reposicionar a narrativa do programa e reduzir desgaste com a população.
O lançamento do crédito consignado para trabalhadores do setor privado, promovido pelo presidente Lula, gerou apreensão entre técnicos da Secretaria de Comunicação Social (Secom). Apesar do apelo popular, os resultados iniciais têm provocado discussões internas sobre os possíveis efeitos fiscais e eleitorais da política.
A Secom esperava uma repercussão positiva capaz de impulsionar a imagem do presidente e aliviar as pressões sobre a política econômica. No entanto, os dados divulgados até o final de março revelam um cenário mais cauteloso, com baixa adesão inicial e críticas de economistas quanto ao potencial inflacionário da medida.
Adesão abaixo do esperado liga sinal de alerta no Planalto
Segundo fontes ouvidas pela reportagem, o Palácio do Planalto previa uma adesão mais robusta nas primeiras semanas de vigência do novo crédito. A liberação oficial ocorreu no início de março, com forte campanha publicitária e apoio de centrais sindicais. Contudo, o ritmo de contratações ficou aquém das projeções iniciais.
Parte da explicação está na demora para que as empresas se credenciem junto às instituições financeiras. Como o modelo depende da autorização do empregador para o desconto em folha, muitas companhias ainda não implementaram o sistema. Além disso, os bancos exigem garantias jurídicas mais robustas antes de ampliarem a oferta do produto, o que travou o crescimento do volume de empréstimos.
Portanto, o impacto direto na economia ainda é limitado. Técnicos da Secom passaram a revisar a estratégia de comunicação, preocupados com a possibilidade de a medida ser percebida como ineficaz ou mal planejada, principalmente diante do atual contexto inflacionário.
Crédito pode pressionar inflação e atrapalhar política monetária
Economistas alertam que a expansão do crédito consignado para a iniciativa privada pode gerar efeitos colaterais. A principal preocupação gira em torno do possível estímulo ao consumo em um momento de pressão nos preços. O Banco Central já indicou que acompanha o tema com atenção, temendo que o aumento da liquidez pressione a inflação e dificulte a manutenção do atual ciclo de queda da taxa Selic.
Segundo Gabriel Galípolo, diretor de Política Monetária do BC, políticas de crédito devem ser calibradas para não comprometer o equilíbrio macroeconômico. Ele afirmou que medidas com apelo popular, como essa, precisam considerar o impacto sobre a massa monetária em circulação.
Além disso, analistas de mercado destacam que a medida pode beneficiar o curto prazo, mas prejudicar o poder de compra das famílias se houver descontrole inflacionário. Portanto, a adoção de políticas compensatórias ou de monitoramento se torna ainda mais necessária.
Apoiador do petista, Gil do vigor faz ressalvas ao consignado de Lula
Recentemente, o economista e ex-bbb Gilberto José Nogueira Junior, conhecido popularmente como Gil do Vigor, repercutiu nas redes ao opinar sobre o crédito consignado para CLT. Com graduação em economia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e atualmente cursando doutorado na University of California, Davis, Gil questionou as últimas decisões do governo, gerando amplo debate nas redes sociais. Confira:
Secom repensa estratégia de comunicação para conter danos
A Secretaria de Comunicação, responsável por articular a imagem do governo junto à população, enfrenta agora o desafio de reposicionar a narrativa em torno da medida. Embora o discurso oficial continue a defender o crédito consignado como instrumento de inclusão e acesso a juros mais baixos, os resultados iniciais obrigam a Secom a repensar a abordagem.
Nos bastidores, auxiliares do presidente discutem maneiras de ressaltar os benefícios da proposta sem inflar expectativas. Uma das possibilidades envolve apresentar histórias reais de trabalhadores beneficiados, com o objetivo de humanizar a medida e aumentar a confiança da população no programa.
Adicionalmente, o governo avalia ajustar o calendário de lançamentos de novas políticas sociais, buscando evitar sobreposição de iniciativas que possam saturar a percepção pública e enfraquecer o impacto individual de cada medida. Assim, pretende preservar capital político e manter o foco na recuperação econômica.
Mercado observa com cautela, mas mantém otimismo moderado
Apesar das incertezas iniciais, o mercado financeiro acompanha o programa com moderação. As principais instituições mantêm avaliações neutras sobre os impactos da medida no desempenho fiscal de 2025, embora reconheçam que a baixa adesão inicial limita seus efeitos positivos.
Por outro lado, o governo ainda aposta em uma curva de crescimento nas próximas semanas, com a entrada de novos bancos e o credenciamento de grandes empregadores. Caso o ritmo se intensifique, a medida poderá injetar recursos significativos na economia e aliviar parte da pressão sobre o consumo das famílias.
Portanto, os próximos 60 dias serão decisivos para que o governo avalie a real efetividade da medida e possa ajustá-la conforme a resposta do mercado e da sociedade. A eventual correção de rota pode incluir novos estímulos ou mesmo revisões nos critérios de operação do programa.