
- Setor registra maior fuga de capital da história
- Anbima propõe mudanças para aumentar a atratividade
- Grandes gestoras apostam na diversificação para resistir
O pior ano da história para os fundos multimercados colocou o setor no centro das discussões da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
Em 2024, os resgates totalizaram R$ 356 bilhões, quase o dobro do registrado no ano anterior, evidenciando a fragilidade da classe de ativos. Agora, a instituição busca medidas para apoiar gestoras e fortalecer a indústria, em um cenário que não deve melhorar tão cedo.
Reformulação regulatória e tributária
A atualização da CVM 175 já trouxe avanços, modernizando as estruturas de classes e subclasses de fundos e otimizando taxas. Segundo Pedro Rudge, diretor da Anbima, a mudança aumenta a segurança do investidor, tornando os fundos mais atrativos.
Contudo, a entidade considera essencial discutir a assimetria tributária entre produtos de investimento, fator que influencia diretamente a preferência dos investidores por ativos isentos, como LCIs, LCAs, CRIs e CRAs.
Rudge destaca que a tributação desigual distorce decisões de alocação, beneficiando classes específicas e prejudicando a competitividade dos fundos multimercados.
A Anbima já participa das discussões sobre a reforma tributária e defende um modelo mais equilibrado para evitar que a preferência dos investidores continue migrando para ativos isentos de Imposto de Renda.
A crise de performance dos multimercados
Outro grande desafio enfrentado pelo setor é o desempenho abaixo do esperado. Um levantamento da Economatica aponta que 75,6% dos fundos multimercados não superam o CDI em 12 meses, com números ainda piores em prazos maiores: 77,1% ficam atrás do índice em 24 meses e 81,4% em 36 meses.
Com os juros em patamares elevados, os investidores tendem a preferir produtos de renda fixa de baixo risco e boa rentabilidade. Esse cenário levou a uma forte migração de recursos, consolidando a renda fixa como a principal escolha de captação para 2025.
Apesar da melhora na performance recente, a atratividade dos multimercados ainda é insuficiente para reverter a tendência de fuga de capital.
Consolidação do setor e estratégias de sobrevivência
O cenário desafiador tem acelerado um movimento de consolidação entre as gestoras. Sem grandes estímulos para atrair investidores, os grandes players do mercado estão diversificando suas atuações para compensar a saída de recursos.
A Itaú Asset ilustra essa estratégia: apesar de perder R$ 28,5 bilhões em multimercados nos últimos 12 meses, captou R$ 79,6 bilhões na renda fixa, garantindo um saldo positivo de R$ 69,1 bilhões.
“Os últimos meses têm sido melhores em termos de performance para os multimercados, mas ainda não é suficiente para atrair a atenção e o desejo dos investidores dado que têm uma alternativa muito atrativa, segura, de baixa volatilidade e que paga uma rentabilidade boa”, destaca o diretor.
Esse movimento também impulsiona fusões e aquisições dentro da indústria. Casas menores, focadas exclusivamente em multimercados, enfrentam dificuldades para se manter e podem ser absorvidas por grandes gestoras.
Estudos da SulAmérica Investimentos mostram que a concentração de receita entre poucos players cresceu nos últimos anos, tendência que deve se intensificar em 2025.
Mortalidade recorde de fundos multimercados
A crise no setor já resultou no maior fechamento de fundos dos últimos nove anos. Dados de Einar Rivero, da Elos Ayta Consultoria, indicam que 1.966 fundos multimercados foram encerrados em 2024, representando 13,5% do total da indústria. Em comparação, a taxa de fechamento foi de 7,1% para fundos de ações e 2,8% para renda fixa.
Pedro Rudge vê esse processo como uma seleção natural do mercado, onde apenas gestoras que oferecem valor real e performance consistente sobrevivem. Para ele, essa dinâmica não enfraquece a indústria, mas reforça a necessidade de inovação e adaptação para que os fundos multimercados voltem a ser competitivos.
“Há um tamanho mínimo de empresa ou fundo que, abaixo disso, não faz sentido continuar. Não acho que impacta a indústria como um todo, nem demonstra fragilidade. Quem conseguir oferecer uma proposta de valor e boa performance tende a sobreviver”, destaca.
O setor enfrenta um 2025 desafiador, com a necessidade urgente de se reinventar para recuperar a confiança dos investidores e garantir sua relevância no mercado financeiro brasileiro.