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- Efeito dos juros elevados e instabilidade política aumenta deslistagens
- Atacadão e Eletromídia são os próximos alvos de fechamento de capital
- Investidores estratégicos enxergam oportunidade para aquisições
O número de empresas listadas na B3 continua em queda, impulsionado por um cenário de juros elevados e instabilidade política que reduz o interesse dos investidores na bolsa de valores.
Grandes companhias, como Atacadão (BOV:CRFB3), do Carrefour, e Eletromídia (BOV:ELMD3), da Globo, estão entre as que devem deixar o mercado acionário nos próximos meses. Para muitas empresas, os desafios superam os benefícios de permanecer na bolsa, tornando a deslistagem uma alternativa mais atrativa.
Menos empresas na B3
O número de companhias listadas na bolsa brasileira caiu de 463 em 2021 para 429 atualmente, segundo dados da B3. A saída de empresas se intensificou em 2024, sendo responsável por metade dessas deslistagens.
Além disso, a falta de novos IPOs agrava o problema, já que não há reposição para as empresas que estão saindo.
Com uma Selic de dois dígitos e uma conjuntura econômica incerta, muitos investidores migraram para ativos de renda fixa, que oferecem maior segurança e retorno elevado. Esse movimento diminuiu ainda mais o interesse por ações, tornando a manutenção do capital aberto menos vantajosa para várias companhias.
Aquisições e fechamento de capital
Empresas como LWSA (BOV:LWSA3), Ourofino Saúde Animal (BOV:OFSA3) e Positivo Tecnologia (BOV:POSI3) já estão avaliando deixar a B3. Em paralelo, algumas gigantes do mercado já tomaram essa decisão: em agosto, a Cielo encerrou sua participação na bolsa após uma oferta pública de seus acionistas controladores.
O Carrefour, por sua vez, planeja deslistar o Atacadão ao comprar as ações que ainda não controla. Já a Globo busca retirar a Eletromídia da B3 após concluir sua aquisição.
Para os investidores estratégicos, esse cenário cria oportunidades valiosas. Empresas estrangeiras e investidores com moeda forte encontram valuations atrativos para fechar capital e assumir o controle total das companhias.
“Estratégicos começaram a aparecer, dispostos a fechar capital”, aponta Keleti, da Alpha Key Capital Management.
“Essas coisas vão acontecer cada vez mais com os preços das ações que estão aqui, porque, principalmente para quem tem moeda forte, está muito barato para comprar.”
Valuations baixos e menor volume de negociação
As ações brasileiras estão sendo negociadas a 7,13 vezes os lucros acumulados nos últimos 12 meses, abaixo da média histórica de 10 anos de 10,06 vezes. Em comparação, o índice MSCI de mercados emergentes está em 12,46 vezes.
A desvalorização das ações, portanto, tem impulsionado movimentos de recompra, na tentativa de manter o interesse dos investidores e evitar quedas ainda maiores.
O volume médio diário de negociação no Ibovespa caiu de R$ 33,2 bilhões em 2021 para R$ 23,9 bilhões em 2024, demonstrando a menor atratividade da bolsa brasileira. Esse ambiente torna a listagem pública menos vantajosa, já que empresas abertas enfrentam volatilidade e saídas massivas de capital de fundos de investimento.
Estratégia de recompra
Com a desvalorização dos papéis, muitas empresas optaram por recomprar suas próprias ações. O ano passado registrou o maior número de programas de recompra desde 2008, com companhias preferindo essa estratégia a novos investimentos.
Segundo Rafael Oliveira, gestor da Kinea Investimentos, a recompra de ações pode ser a melhor aplicação de capital disponível em um ambiente de juros elevados.
“As empresas estão achando mesmo as suas ações muito baratas”, disse Rafael Oliveira.
“Elas estão enxergando que a recompra é talvez o investimento mais barato que podem fazer nesse contexto de juro elevado”.
O movimento de saída da B3 deve continuar enquanto a conjuntura econômica e política seguir instável. Enquanto isso, investidores estratégicos e grandes grupos financeiros permanecem atentos para capturar oportunidades em um mercado onde os preços das ações seguem pressionados.