
- O PIB brasileiro cresceu 0,9% no terceiro trimestre de 2024, gerando otimismo, mas especialistas alertam para os riscos de um crescimento não sustentável
- O PIB potencial reflete a capacidade máxima de produção de um país, levando em conta recursos como mão de obra qualificada e infraestrutura, sem gerar desequilíbrios econômicos
- Quando o PIB de curto prazo supera o PIB potencial, a economia fica “aquecida”, gerando pressões inflacionárias e aumentando a demanda por dólares, o que pode prejudicar a estabilidade econômica
- Embora o aumento do PIB seja comemorado, especialistas como Richard Rytenband alertam que esse crescimento pode gerar distorções, comprometendo o crescimento sustentável no futuro
Muitos comemoraram o crescimento de 0,9% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no terceiro trimestre de 2024. Assim, considerando-o um sinal positivo da recuperação da economia.
No entanto, essa cifra, amplamente divulgada pela imprensa, também gerou discussões sobre sua real implicação para o futuro econômico do Brasil.
Richard Rytenband, estrategista-chefe da Convex Research, alertou sobre a interpretação do PIB de curto prazo. E, ainda, destacou que esse número não indica um crescimento sustentável, pois o PIB potencial do país está muito abaixo desse valor.
O que é o PIB Potencial e por que ele é crucial?
Para entender melhor a questão, é necessário compreender o conceito de PIB potencial. Rytenband explica que o PIB potencial representa a capacidade de uma economia em produzir bens e serviços. Levando em consideração os recursos disponíveis, como a força de trabalho, sua qualificação, o conhecimento e a capacidade das empresas.
Ou seja, o PIB potencial é a produção máxima que um país pode atingir sem gerar desequilíbrios ou pressões inflacionárias.
No entanto, o PIB de curto prazo, que é o indicador divulgado a cada trimestre, não leva em conta essas limitações.
Ele simplesmente mede a variação do valor total de bens e serviços produzidos em um dado período, sem considerar se a economia está ou não operando de forma sustentável.
Quando o PIB de curto prazo ultrapassa o PIB potencial, isso indica que a economia está operando acima de sua capacidade produtiva, o que resulta em um “aquecimento” econômico.
O aquecimento econômico
De acordo com Rytenband, quando a economia opera acima de sua capacidade, surgem distorções importantes. Uma das consequências mais imediatas é a pressão inflacionária.
Quando a demanda por bens e serviços é maior do que a capacidade de produção, os preços começam a subir, impulsionados pela escassez de recursos, como a mão de obra e os estoques de produtos.
Esse fenômeno pode gerar uma inflação mais alta, o que prejudica o poder de compra da população e dificulta o controle da economia no longo prazo.
Outro efeito indesejado desse “aquecimento” da economia é a pressão sobre o câmbio. Para atender à demanda interna por produtos importados, o Brasil precisa adquirir dólares, o que aumenta a demanda pela moeda americana e pressiona a taxa de câmbio para cima.
A valorização do dólar, por sua vez, torna os produtos importados mais caros, o que também contribui para a inflação.
Rytenband destaca que esses efeitos, embora possam gerar manchetes positivas no curto prazo, são prejudiciais para a economia no futuro.
Quando a economia está superaquecida, ela tende a enfrentar uma desaceleração mais acentuada posteriormente, pois as distorções geradas (como a inflação alta e a desvalorização da moeda) tendem a criar um ambiente econômico mais instável.
O crescimento sustentável, por outro lado, é aquele que ocorre dentro dos limites do PIB potencial, sem causar desequilíbrios.
A ilusão do crescimento de curto prazo
O estrategista-chefe da Convex Research alerta que grande parte da sociedade acaba caindo na “ilusão do PIB de curto prazo”.
Embora o crescimento de 0,9% no terceiro trimestre de 2024 tenha sido comemorado, Rytenband enfatiza que esse aumento resulta de uma economia aquecida. O que não indica um crescimento saudável e duradouro.
Ele ressalta que é necessário olhar para os fundamentos econômicos de longo prazo. Como a capacidade de produção sustentável, para avaliar a verdadeira saúde da economia.
Em resumo, o PIB de curto prazo pode até gerar boas manchetes e uma sensação temporária de prosperidade, mas, segundo os especialistas, a verdadeira questão está em garantir um crescimento sustentável, que respeite os limites da capacidade produtiva do país.
Isso só será possível com uma gestão econômica que foque na estabilidade, na geração de empregos de qualidade, no aumento da produtividade e no controle da inflação.
Para Rytenband, a verdadeira recuperação econômica só será alcançada quando a economia brasileira começar a operar dentro de seus limites, e não além deles.