
- Orçamento de 2025 da Itaipu destina recursos significativos a categorias genéricas, dificultando fiscalização.
- Analistas destacam riscos de ineficiência e uso inadequado devido à ausência de especificação nos gastos.
- Entidades fiscalizadoras planejam acompanhar de perto a execução orçamentária para assegurar conformidade e eficiência.
A gestão da usina binacional Itaipu reservou cerca de R$ 8,9 bilhões para gastos no Orçamento de 2025 sem especificar os detalhes de aplicação. A informação consta no relatório técnico aprovado pelo Conselho de Administração da entidade e levantou questionamentos sobre a transparência da estatal, que pertence simultaneamente ao Brasil e ao Paraguai.
O valor destinado a esses gastos corresponde a aproximadamente 36% de todo o orçamento da empresa para o ano, que gira em torno de R$ 24 bilhões. A maior parte da verba indefinida está concentrada na rubrica “serviços e encargos”, sem descrição clara sobre os projetos ou contratos vinculados. Apesar de ser um planejamento interno, o relatório não esclarece como os recursos serão divididos entre ações sociais, investimentos diretos ou parcerias com outras instituições.
Documento aprovado sem detalhes técnicos sobre os repasses
A aprovação do plano orçamentário ocorreu no início de março, mas o conteúdo foi divulgado apenas no final do mês pelo jornal Valor Econômico. Ao analisar o documento, especialistas em contas públicas apontaram a falta de transparência como um risco à boa governança da estatal, que já vinha sendo criticada por priorizar investimentos fora de seu escopo principal — a geração de energia.
Além disso, entidades como a Associação dos Auditores de Controle Externo defenderam maior detalhamento nos valores empenhados. Segundo elas, a ausência de informações impede que órgãos de fiscalização e a sociedade acompanhem a aplicação correta dos recursos públicos, ainda que se trate de uma entidade binacional com regime próprio.
A Itaipu Binacional, por sua vez, alegou que o plano segue os padrões aprovados pelos conselhos do lado brasileiro e paraguaio. Ainda assim, a empresa não apresentou planilhas detalhadas ou qualquer nota explicativa adicional ao orçamento.
Repercussão política e possível investigação
Parlamentares da oposição pediram esclarecimentos à Casa Civil e ao Ministério de Minas e Energia. De acordo com os deputados, é necessário saber se parte da verba será usada em ações político-partidárias ou em projetos com viés ideológico. Portanto, o tema pode chegar ao Tribunal de Contas da União (TCU), caso os esclarecimentos não sejam suficientes.
Em nota, o governo federal disse que respeita a autonomia administrativa da Itaipu, mas também reforçou a necessidade de seguir princípios de transparência e eficiência. Fontes do Executivo revelaram que integrantes do Palácio do Planalto ficaram desconfortáveis com a repercussão e avaliam solicitar à estatal um relatório complementar nos próximos dias.
Histórico recente de críticas à gestão da usina
Esta não é a primeira vez que a gestão da usina recebe críticas por falta de clareza em suas ações. Desde 2023, a Itaipu vem sendo acusada de realizar investimentos considerados fora de sua finalidade, como construção de estradas e patrocínios de eventos regionais. Na época, a direção afirmou que os projetos tinham retorno social e integravam um plano de responsabilidade institucional.
Ainda assim, o número crescente de projetos com viés político levou a Procuradoria do Paraná a questionar parte dos contratos assinados entre a estatal e municípios vizinhos. Apesar das alegações, nenhuma irregularidade foi comprovada até o momento. No entanto, a nova previsão orçamentária volta a acender o debate sobre o papel da estatal no desenvolvimento regional e sobre os limites de sua atuação.
Papel estratégico de Itaipu na matriz energética
Mesmo com as críticas, a Itaipu segue como uma das maiores geradoras de energia limpa do mundo. Responsável por cerca de 8% de toda a energia consumida no Brasil, a usina opera com alto índice de eficiência e já contribuiu com dezenas de bilhões de reais ao longo dos anos em obras de infraestrutura.
Além disso, sua relevância geopolítica na relação entre Brasil e Paraguai permanece estratégica. Ambos os países precisam aprovar em conjunto as principais decisões — o que, segundo analistas, exige ainda mais transparência para evitar conflitos diplomáticos.
Portanto, a falta de clareza sobre o uso de quase R$ 9 bilhões pode gerar desconfiança na imagem institucional da empresa e no âmbito interno.