
- Medida busca evitar superendividamento e ampliar acesso ao crédito seguro.
- Artigo no Estadão afirma que modelo cria ciclo de dependência e pode elevar preços.
- Adesão depende do setor privado, que deve autorizar desconto em folha dos trabalhadores.
O anúncio da nova linha de crédito consignado para trabalhadores com carteira assinada gerou reações divergentes no meio político e econômico. Enquanto o governo federal defende a medida como estratégia de educação financeira e inclusão ao crédito responsável, críticos alegam que a política pode pressionar a inflação e comprometer o equilíbrio fiscal.
Governo aposta na inclusão e na prevenção ao superendividamento
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que o novo consignado para trabalhadores CLT tem como foco estruturar o sistema de crédito no país. A proposta prevê empréstimos com desconto em folha, com limite de 30% da renda e taxa de juros controlada.
De acordo com o Valor Investe, Haddad garantiu que a medida não tem relação com pressões conjunturais. “Esse modelo não busca impulsionar o consumo a curto prazo, mas oferecer uma alternativa mais segura e sustentável de crédito às famílias assalariadas”, explicou o ministro durante entrevista coletiva.
Além disso, o governo informou que o novo produto integra um conjunto maior de iniciativas, como o programa Desenrola Brasil e incentivos ao microcrédito produtivo. A expectativa é ampliar o acesso ao crédito com responsabilidade, prevenindo o superendividamento e reduzindo a dependência de linhas com juros altos, como o rotativo do cartão.
Artigo critica política como estímulo à inflação e alerta sobre lógica perversa
No entanto, o editorialista Carlos Andreazza, em artigo publicado na última segunda-feira (24) no Estadão, criticou duramente a estratégia do governo. Segundo ele, ao incentivar o crédito ao consumo, a nova linha pode agravar a inflação ao aumentar a circulação de dinheiro sem contrapartida de produtividade.
Andreazza argumenta que há uma “lógica perversa” no modelo: ao mesmo tempo que o governo oferece empréstimos mais acessíveis, ele pode ampliar a base monetária, gerando efeitos colaterais na economia. “Quanto mais o governo oferece dinheiro fácil, mais os preços sobem, e mais ele precisa subsidiar”, escreveu.
Portanto, segundo o colunista, a medida cria um ciclo de dependência no qual o Estado estimula artificialmente o consumo enquanto tenta mitigar os efeitos inflacionários que ele mesmo provoca.
Bancos e empresas privadas terão papel decisivo na execução
Independentemente das críticas, a nova linha de crédito depende da adesão das empresas privadas, que devem autorizar o desconto em folha dos funcionários. O governo já iniciou conversas com o setor produtivo e pretende oferecer incentivos operacionais e tributários para ampliar a base de empresas conveniadas.
Além disso, as instituições financeiras precisarão seguir regras rígidas, como limitar as taxas de juros e garantir condições transparentes aos trabalhadores. A educação financeira será um dos pilares da implementação, com campanhas voltadas à orientação de quem tomar os empréstimos.
Segundo especialistas consultados pelo Valor, o sucesso da medida vai depender do equilíbrio entre estímulo e prudência. “Se a execução for técnica e restrita, pode funcionar como alívio para famílias endividadas. Mas se houver descontrole, pode trazer efeitos negativos nos preços”, avaliou o economista Paulo Vasques.
Debate sobre crédito e inflação deve marcar próximos meses
A controvérsia em torno da nova linha de crédito mostra como o tema do endividamento das famílias e da inflação voltou ao centro do debate econômico. Com a taxa básica de juros ainda elevada e o consumo pressionado, o governo busca formas de reequilibrar a oferta de crédito sem romper o teto de gastos.
Enquanto isso, a oposição já se articula para convocar audiências públicas sobre os riscos fiscais da política de crédito. Parlamentares pedem mais clareza sobre os impactos esperados na arrecadação e no comportamento dos preços.
Portanto, a medida anunciada por Lula pode se tornar um dos principais focos de embate entre governo e oposição no segundo trimestre do ano, especialmente com as eleições municipais se aproximando.