Proteção de território

Indígenas cobram Lula por aumento de roubo de madeira e incêndios

Indígenas entregam carta ao presidente exigindo reforço na proteção do território diante do avanço do crime organizado e queimadas.

Índigenas - Reprodução: Turismo e crise climática: Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Índigenas - Reprodução: Turismo e crise climática: Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
  • Presidente foi recebido no Xingu com apoio e cobranças por lideranças indígenas durante visita a aldeias em Mato Grosso
  • Carta entregue a Lula reconhece avanços contra o desmatamento, mas alerta para extração ilegal de madeira, queimadas criminosas e crime organizado na região
  • Indígenas exigem medidas mais efetivas para proteger o território e combater atividades ilegais no Xingu

Durante visita a aldeias em Mato Grosso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ouviu manifestações de apoio, mas também enfrentou demandas firmes de lideranças indígenas. As lideranças indígenas, reunidas na Rede Xingu+ — coalizão de 48 organizações indígenas e ribeirinhas — entregaram a Lula um documento contundente.

A carta reconhece os avanços no combate ao desmatamento, mas alerta para o crescimento da extração ilegal de madeira, incêndios criminosos e o fortalecimento do crime organizado na bacia do rio Xingu.

O presidente participou de encontros com o cacique Raoni Metuktire, uma das principais vozes indígenas do Brasil, mas o tom das reuniões foi mais do que cerimonial.

“As operações do Ibama e ICMBio têm sido insuficientes, e a Polícia Federal não tem conseguido responsabilizar as organizações criminosas”, diz um trecho da carta entregue a Lula.

As lideranças defendem medidas mais rigorosas e a ampliação da atuação do governo federal na proteção dos territórios indígenas.

Indígenas reconhecem queda no desmatamento, mas alertam que criminalidade ambiental ainda avança no Xingu.

Eles denunciam a presença de grupos que aliciam moradores locais, inclusive indígenas e ribeirinhos, para facilitar a extração ilegal de madeira nobre, especialmente em áreas demarcadas.

Roubo de madeira e queimadas disparam

Os estados do Pará e Mato Grosso concentram a maior parte da exploração madeireira ilegal. Em apenas um ano, o Pará registrou 38.552 hectares explorados, sendo 46% sem autorização. Já o Mato Grosso lidera o ranking nacional, com aproximadamente 200 mil hectares afetados.

Municípios como União do Sul, Nova Ubiratã, Marcelândia e Feliz Natal, todos situados na bacia do Xingu, respondem por 72% de toda a extração ilegal no estado.

Além da devastação florestal, os incêndios se tornaram outro problema crítico. De 2023 a 2024, o aumento das queimadas na bacia do Xingu foi de 353%. A Terra Indígena Kayapó, por exemplo, registrou crescimento de 1.886% nas áreas atingidas pelo fogo.

No total, áreas protegidas já acumulam 2,798 milhões de hectares queimados em 2024 — cerca de 71% dentro de terras indígenas, segundo análise do MapBiomas.

As lideranças afirmam que profissionais de saúde e brigadistas estão sendo ameaçados por criminosos, e exigem reforços aos órgãos ambientais e mais efetividade da Polícia Federal.

“Estamos falando de organizações que promovem tráfico de armas, ameaçam agentes públicos e operam com total impunidade”, alerta a antropóloga Luísa Molina, do Instituto Socioambiental (ISA), que integra a Rede Xingu+.

Carta indígena pede revisão de políticas

Além dos crimes ambientais, a carta entregue a Lula cobra respostas sobre temas estruturais. Sendo eles, uso intensivo de agrotóxicos nas proximidades das áreas protegidas, o descumprimento das condicionantes da usina de Belo Monte e a necessidade de revisão do modelo de operação da hidrelétrica.

Além de oposição ao projeto da Ferrogrão — ferrovia que ameaça cortar territórios preservados da Amazônia. O documento também retoma uma promessa feita por Lula em sua posse, em 2023: a demarcação de terras indígenas. Raoni, que esteve ao lado do presidente naquele momento simbólico, reafirmou que esperava o cumprimento desse compromisso.

“Seguimos confiantes no compromisso de seu governo com os direitos dos povos indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais, e com a proteção da Amazônia”, finaliza o texto.

A visita de Lula ao Xingu, portanto, deixa de ser apenas um gesto político e se transforma em um marco de cobrança. Os povos originários exigem medidas urgentes e estruturais para garantir sua sobrevivência e a integridade da maior floresta tropical do planeta.

O encontro ocorre dois dias após a visita da atriz Angelina Jolie à aldeia Piaraçu, reforçando o foco internacional sobre a região e seus desafios.

Rocha Schwartz
Paola Rocha Schwartz
Estudante de Jornalismo, apaixonada por redação e escrita! Tenho experiência na área educacional (alfabetização e letramento) e na área comercial/administrativ