
- Risco de recessão nos EUA sobe para 50%: Mohamed El-Erian, da Allianz, alerta para aumento preocupante da probabilidade
- Tarifas de Trump pioram cenário: Medidas protecionistas do governo americano agravam incertezas econômicas e elevam riscos
- Impacto global em jogo: Políticas comerciais dos EUA podem desencadear efeitos negativos em economias ao redor do mundo
A nova rodada de tarifas comerciais imposta pelo governo Trump representa um ponto de inflexão na economia americana. Ao sobretaxar importações, especialmente de parceiros estratégicos como a China, o presidente dos EUA provocou uma desaceleração no comércio e aumento nos custos de produção.
El-Erian destacou que essa política não apenas prejudica a eficiência das cadeias produtivas, como também gera incertezas que afetam o investimento privado.
Segundo o economista, o crescimento projetado entre 1% e 1,5% em 2025 está perigosamente próximo do chamado “ponto de estol”, quando a economia se expande tão lentamente que perde a capacidade de gerar empregos, aumentar salários e alocar recursos de forma eficaz.
“Você teve uma reprecificação importante das perspectivas de crescimento, com a chance de recessão nos EUA subindo para 50%. E também houve um aumento nas expectativas de inflação, agora em 3,5%”, disse o economista.
“Não acho que uma recessão seja inevitável porque a estrutura da economia é muito forte, mas o risco se tornou desconfortavelmente alto.”
A previsão está bem abaixo dos 2,7% esperados pelo FMI no início do ano e sugere que os efeitos das tarifas já estão se refletindo nos principais indicadores econômicos.
Mercados subestimam a inflação e erram projeções
Além do impacto sobre o crescimento, El-Erian alertou que os mercados financeiros ainda não precificaram adequadamente a inflação. Ele apontou que os aumentos de preços decorrentes das tarifas ainda estão por ser totalmente absorvidos nas cadeias de consumo.
O índice de gastos com consumo pessoal (métrica preferida do Fed) teve recentemente seu maior salto mensal em mais de um ano, indicando uma inflação mais resiliente do que se previa.
Apesar disso, os investidores ainda esperam até quatro cortes de juros em 2025. El-Erian discorda.
“Se tivermos sorte, veremos um corte. E não me surpreenderia se não houvesse nenhum”, afirmou.
Para ele, o Federal Reserve está operando fora dos padrões tradicionais e pode se ver forçado a manter os juros em níveis elevados por mais tempo, caso a inflação persista.
“Se fosse um Fed normal — e eu destaco o ‘se’ com ênfase, porque este não tem sido um Fed normal —, provavelmente não haveria corte algum.”
Recessão americana pode arrastar o mundo para baixo
A deterioração das perspectivas econômicas dos EUA já começa a repercutir no cenário internacional. Após o anúncio das tarifas, moedas como o euro e a libra ganharam força frente ao dólar, mas esse movimento foi rapidamente revertido após a China responder com medidas retaliatórias.
A divisa americana voltou a subir com força nesta sexta-feira, à medida que investidores buscam segurança em meio ao aumento da incerteza global.
El-Erian alertou que a desaceleração americana tende a afetar o restante do mundo com ainda mais intensidade.
“O mercado reagiu a menor crescimento, juros mais baixos e redução nos fluxos de capital para os EUA. Mas se os EUA desacelerarem, o resto do mundo vai desacelerar ainda mais”, disse El-Erian.
O economista sinalizou que fluxos de capital podem se retrair, afetando mercados emergentes, enquanto o comércio global sofre com a multiplicação de barreiras tarifárias.