
- Diretor do BC ameaça renunciar se fusão entre Master e BRB for aprovada.
- Grupo interno aponta irregularidades e já redigiu minuta de intervenção.
- Operação bilionária com CDBs e precatórios levanta suspeitas de fraude.
O Banco Central enfrenta um dos episódios mais tensos dos últimos anos com a possível fusão entre o Banco Master e o BRB. A operação, ainda em análise, provocou um racha na cúpula da autoridade monetária, gerando risco de renúncia e acirrando o debate sobre uma intervenção imediata.
No centro da crise está a suspeita de fraudes bilionárias, pressões políticas e problemas de liquidez. Enquanto parte da diretoria defende uma ação dura, outra busca alternativas menos traumáticas. Desse modo, a decisão, que precisa ocorrer nos próximos dias, poderá ter impacto direto sobre investidores, fundos de previdência e a credibilidade do sistema bancário nacional.
Diretoria dividida e ameaça de renúncia
A tensão no Banco Central aumentou desde que Renato Gomes, diretor de Organização do Sistema Financeiro, passou a defender a intervenção no Banco Master. Ele chegou a indicar que deixará o cargo caso a fusão com o BRB seja aprovada. Vale ressaltar que Gomes conta com o apoio de Gilneu Vivan, diretor de Regulação.
Além disso, ambos baseiam sua posição em irregularidades detectadas por uma equipe técnica que acompanha o caso desde março. Essa análise resultou na elaboração de uma minuta de intervenção. Já o diretor de Fiscalização, Aílton Aquino, por outro lado, se opõe à medida, aprofundando a divisão interna.
Gabriel Galípolo, presidente do BC, tenta conter os ânimos e adiar a decisão. No entanto, a pressão cresce tanto por parte dos diretores quanto da opinião pública. A situação exige uma resposta rápida e assertiva da instituição.
Transação bilionária e ativos duvidosos
Entre os pontos mais graves está a compra de uma carteira de créditos de cerca de R$ 12 bilhões. A operação ocorreu no fim de 2024, e os técnicos questionam a existência de lastro suficiente para garantir esses créditos. A possível ausência de garantias levanta dúvidas sobre a solvência do Master.
Além disso, o banco captou R$ 1,867 bilhão com a venda de letras financeiras a fundos de previdência municipais e estaduais. Esses papéis oferecem rendimentos muito acima da média de mercado. A Caixa chegou a recusar a aquisição desses títulos, alegando alto risco.
Outro fator que pressiona o BC é a presença de precatórios inflados no balanço do banco. Esses ativos representam parte relevante do patrimônio do Master. A auditoria da KPMG destacou o tema como um dos principais pontos críticos do balanço.
Intervenção ou salvação política?
Enquanto a área técnica aponta riscos sérios, setores do Congresso trabalham para evitar a intervenção. Desde o anúncio da fusão, parlamentares se mobilizam para impedir a criação de uma CPI e convencer o governo a aprovar a compra. A atuação política é vista como uma tentativa de salvar o banco, mesmo diante das suspeitas.
Ademais, o BRB, estatal do Distrito Federal, propôs pagar R$ 2 bilhões por 58% do Master, sem assumir o controle. A estrutura do acordo sugere uma operação de socorro disfarçada. Apesar disso, o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, nega qualquer irregularidade e afirma que o banco será seletivo ao assumir os passivos.
Portanto, a proposta não inclui o pagamento integral dos CDBs emitidos pelo Master. Esses papéis prometeram comissões elevadas a vendedores e retornos acima do padrão para investidores. Isso levou o BC a questionar a sustentabilidade da estrutura de capital da instituição.
Risco sistêmico e reputação em jogo
A demora do Banco Central em decidir agrava a crise. Qualquer caminho trará impactos relevantes. Uma intervenção pode desencadear pânico no setor, afetando diretamente os fundos de previdência e os investidores de varejo. Já a aprovação da fusão, sem sanções, pode abalar a credibilidade do BC.
Além disso, especialistas apontam que o índice de Basileia do Master está sob ameaça. Esse indicador mede a capacidade de absorção de perdas. Para continuar operando, um banco precisa manter esse índice acima de um patamar mínimo. Caso contrário, perde a autorização para funcionar.
Nos bastidores, o risco de uma crise bancária cresce. A Polícia Federal também investiga os controladores do Master por suspeita de fraude envolvendo precatórios. Desse modo, o caso já extrapolou os limites da análise técnica e exige uma resposta institucional à altura da gravidade.