
- Economia mostra resiliência, com crédito em alta e desemprego em 5,6%, apesar do juro elevado.
- Galípolo rebate Haddad e diz que o BC não pode brigar com os dados econômicos.
- Selic a 15% deve continuar até que a inflação volte para a meta de 3%.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, respondeu às declarações do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que afirmou haver “espaço para cortes” na taxa Selic. Em tom firme, o economista reforçou nesta quarta-feira (12) que a autoridade monetária não pode agir com base em opinião, mas sim nos dados econômicos concretos.
“Todo mundo pode brigar com o Banco Central. O Banco Central que não pode brigar com os dados”, disse Galípolo, reforçando o compromisso com a meta de inflação de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou menos.
Selic segue em patamar restritivo
Durante evento público, o presidente do BC voltou a justificar a manutenção da taxa Selic em 15% ao ano, argumentando que o patamar é necessário para garantir a convergência da inflação à meta. Segundo ele, a taxa permanecerá elevada enquanto houver pressões persistentes sobre os preços.
“Está bem claro por que a gente está com uma taxa de juros num patamar restritivo e por que entende ser necessário permanecer assim”, afirmou. Ele destacou ainda que o Banco Central tem objetivos técnicos definidos, sem espaço para interferência política direta.
Nos últimos 12 meses, o IPCA acumula alta de 4,68%, acima da meta estabelecida. Galípolo citou que, durante seu mandato, nenhum mês ficou dentro do intervalo da meta, reforçando que os dados ainda não permitem uma postura mais branda da política monetária.
Relação com Haddad e política fiscal em foco
As declarações de Galípolo vêm após uma série de tensões públicas entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central. Embora tenha evitado citar diretamente Haddad, o presidente do BC defendeu a autonomia da instituição e destacou que a política fiscal não é de sua competência direta.
“A bola que eu tenho que estar de olho sempre é a inflação. O que importa é como a política fiscal afeta a inflação corrente, as expectativas e os ativos financeiros”, disse. A fala foi interpretada como um recado direto ao governo, que tem pressionado por uma redução mais rápida dos juros.
Economistas avaliam que o embate reflete visões distintas dentro do governo Lula sobre o ritmo da política monetária. Enquanto Haddad busca estímulo à atividade, Galípolo mantém postura técnica e conservadora diante do risco de desancoragem inflacionária.
Economia resiste ao juro alto
Apesar do juro real elevado — estimado em 10% ao ano —, Galípolo destacou a resiliência da economia brasileira, com crescimento do crédito e queda no desemprego. O mercado de trabalho, segundo o IBGE, registrou taxa de 5,6% até setembro, o menor nível da série histórica.
O presidente do BC afirmou que o órgão estuda os canais de transmissão da política monetária no país, avaliando por que o juro alto não tem reduzido de forma mais intensa o consumo e o crédito. “É um fenômeno que merece análise mais profunda”, disse.
O estudo será conduzido pelo diretor de Política Econômica do BC, Diogo Guillen, e deve servir de base para decisões futuras sobre o ritmo da Selic. Ainda assim, Galípolo reforçou que os próximos passos dependem dos dados de inflação e atividade.