
- HAPV3 despencou 42,21%, levando bancos a cortarem projeções e preços-alvo.
- Margens fracas, sinistralidade alta e competição intensa reforçam tese de “value trap”.
- Recompra robusta ajuda, mas não resolve a baixa visibilidade operacional.
A derrocada de 42,21% das ações da Hapvida (HAPV3) após o resultado do 3T25 reacendeu um debate incômodo no mercado: o ativo está barato porque oferece potencial, ou porque a empresa caiu em uma profunda armadilha de valor? A maior operadora de saúde do país perdeu quase R$ 7 bilhões em valor de mercado em apenas um pregão, e a reação das casas de análise indica que a pressão pode continuar.
Mesmo bancos que mantêm recomendação de compra reforçam que a companhia enfrenta sinistralidade elevada, pressão competitiva intensa e margens instáveis, fatores que podem atrasar qualquer recuperação. Os cortes de preço-alvo mostram que a confiança na execução da Hapvida está no menor nível desde o IPO.
JPMorgan corta a recomendação e alerta para persistência dos problemas
O JPMorgan rebaixou HAPV3 para neutra antes mesmo da abertura do pregão que marcou o colapso das ações. O banco reduziu o preço-alvo de R$ 52 para R$ 39, destacando que as pressões reveladas no 3T25, como sinistralidade acima do esperado e provisões maiores, devem continuar ao longo de 2026.
Para os analistas, a companhia faz investimentos relevantes para reduzir reclamações e melhorar a qualidade do serviço, mas não colhe resultados. As adições líquidas seguem fracas, os cancelamentos permanecem elevados e o ambiente competitivo piorou com a Amil adotando postura “mais agressiva” em São Paulo, o maior mercado da Hapvida.
Além disso, o JPMorgan projeta um lucro de R$ 1 bilhão para 2026, bem abaixo do consenso de R$ 1,5 bilhão, reforçando a cautela com o ciclo operacional.
BTG e Bradesco BBI seguem com compra; mas cortam preços-alvo de forma drástica
O BTG Pactual manteve recomendação de compra, embora revise o preço-alvo de R$ 67 para R$ 50. Para o banco, a execução da companhia ainda preocupa, já que o Ebitda de 12 meses está estagnado há oito trimestres e as margens, antes esperadas acima de 17%, agora giram próximo de 14%.
O BTG reforça que a teleconferência de resultados não conseguiu ancorar expectativas, especialmente em um cenário de MLR elevado, novas unidades pressionando custos e volatilidade judicial. Mesmo com potencial alto no fluxo de caixa descontado, a incerteza nas margens reduz a relevância do valuation.
O Bradesco BBI compartilha visão semelhante. O banco manteve compra, mas cortou o preço-alvo de R$ 51 para R$ 27, uma redução agressiva diante da deterioração operacional. A projeção de lucro para 2026 caiu 42%, para R$ 863 milhões, considerando sinistralidade de 73,6% e Ebitda de 10,6%.
Recompra pode ajudar; mas não muda o quadro imediato
A Hapvida anunciou um programa de recompra de 70 milhões de ações, equivalente a 15% do total e 24% do free float. O movimento chamou atenção por ocorrer logo após a queda massiva, levantando dúvidas sobre sua efetividade como mecanismo de suporte.
O mercado avalia que a recompra estabiliza o preço, mas não resolve a estagnação, a perda no Sudeste e a dificuldade de atrair vidas.
O consenso aponta que o 4T25 seguirá pressionado, com custos elevados, margens comprimidas e pouca visibilidade operacional. A dúvida é se a Hapvida conseguirá ajustar o modelo antes que o mercado perca definitivamente a confiança.