
- Ciclo financeiro exposto mostra operação consumindo caixa, acima dos concorrentes
- Ajuste bilionário nos estoques reduziu margens, capital investido e giro operacional
- ROIC caiu para 6,3% e VEC virou negativo, indicando destruição de valor
O Grupo Mateus (GMAT3) enfrenta um dos episódios mais sensíveis de sua história recente após o ajuste de R$ 1,013 bilhão em estoques, que derrubou indicadores essenciais e colocou a qualidade das demonstrações financeiras sob forte questionamento. O movimento reduziu em 20% o valor originalmente reportado para 2023.
O impacto atravessou toda a estrutura operacional: margens, ROIC, capital investido e geração de valor econômico foram reclassificados para baixo, desmontando a percepção de que a empresa entregava eficiência acima do setor.
Ajuste retroativo muda leitura do desempenho
O ajuste reduziu os estoques de R$ 5,088 bilhões para R$ 4,074 bilhões, alterando imediatamente a fotografia do ativo circulante, que caiu para R$ 9,385 bilhões. Esse movimento atingiu o Capital de Giro Operacional Líquido, que recuou 19%, para R$ 4,345 bilhões.
Essa revisão atravessou o cálculo do capital investido, agora em R$ 10,226 bilhões, uma queda de 9% em relação ao valor divulgado antes da reclassificação. Como o capital investido é a base do retorno econômico, a mudança reduziu a capacidade demonstrada de gerar valor.
No resultado operacional, o impacto foi ainda mais profundo: o lucro operacional caiu de R$ 1,683 bilhão para R$ 669 milhões, e o lucro bruto recuou 17%. A empresa ainda não republicou a DRE ajustada, mantendo o mercado na expectativa.
ROIC desaba e empresa passa a destruir valor
Com a redução do lucro operacional e do NOPAT, o ROIC despencou de 14,9% para 6,3%, queda de 58%. O indicador, que sugeria retorno marginalmente superior ao custo de capital, passou a sinalizar destruição de valor.
A análise mostra que o VEC, antes positivo em R$ 193 milhões, virou negativo em R$ 697 milhões, apontando deterioração de 461%. Assim, a empresa passou de criadora para destruidora de valor econômico.
O cenário sinaliza que o desempenho reportado anteriormente não refletia a realidade operacional, o que reforça o debate sobre governança corporativa e controles internos.
Ciclo financeiro revela distorção estrutural
O ciclo financeiro ajustado expôs um desalinhamento relevante: enquanto peers como Assaí, Carrefour e Pão de Açúcar operam com ciclo negativo entre -12 e -23 dias, o Grupo Mateus mantém ciclo positivo de 64 dias.
Os estoques param 61 dias imobilizados, enquanto o prazo com fornecedores é de apenas 37 dias, o que exige financiamento contínuo da operação. No setor, esse descasamento indica consumo de caixa, e não geração.
Os ajustes nos estoques, portanto, deixaram evidente uma estrutura de capital de giro menos eficiente do que se imaginava, ampliando o risco operacional embutido na empresa.