
O Banco Central do Brasil (BC) decidiu impor sigilo total sobre os registros de comunicações e reuniões entre suas autoridades e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), relacionadas ao processo de liquidação do Banco Master.
A medida foi revelada por meio de um pedido via Lei de Acesso à Informação (LAI) e gerou críticas de parlamentares e analistas, que questionam a transparência em um caso já envolto em controvérsias. O BC alega a necessidade de proteger dados patrimoniais, informações pessoais e sigilos bancário e empresarial, não liberando nem mesmo dados básicos, como datas de encontros ou trocas de mensagens.
Contrato milionário de esposa de Moraes com Banco e pressão a presidente do BC
O Banco Master, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro, enfrenta um processo de liquidação extrajudicial decretado pelo BC em novembro de 2025, após a identificação de irregularidades financeiras graves, incluindo suspeitas de fraudes e operações fictícias. O banco acumulou prejuízos bilionários e estava em negociações para uma possível venda ao Banco de Brasília (BRB), uma instituição pública.
O envolvimento de Alexandre de Moraes no caso veio à tona em dezembro de 2025, quando foi relatado que o ministro teria contatado o presidente do BC, Gabriel Galípolo, em pelo menos quatro ocasiões — três por telefone e uma presencialmente — para discutir a situação do banco. Essas interações ocorreram enquanto o BC avaliava a intervenção e a possível venda. Moraes e Galípolo negam qualquer irregularidade, afirmando que as conversas foram registradas e limitadas a questões institucionais.
Adicionalmente, o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, foi contratado pelo Banco Master por R$ 129 milhões para serviços jurídicos. Os pagamentos mensais chegavam a R$ 3,6 milhões e foram interrompidos após a liquidação. O contrato, levanta questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse, especialmente dada a proximidade temporal com as intervenções de Moraes.
A decisão de sigilo e a justificativa do BC
Em resposta a um pedido de LAI, o BC negou o acesso integral aos documentos. A autarquia argumentou que os processos envolvem dados de operações financeiras protegidos por sigilo bancário, informações pessoais protegidas pelo direito à intimidade e à privacidade, além de dados patrimoniais, contábeis e estratégicos das instituições supervisionadas, protegidos pelo sigilo empresarial. Como as manifestações técnicas tratam integralmente desses dados, o BC afirmou que não seria possível disponibilizar as informações solicitadas.
Essa postura difere da prática comum em órgãos públicos, que geralmente divulgam partes não sensíveis dos documentos. Recentemente, o ministro Dias Toffoli, também do STF, impôs sigilo sobre processos relacionados ao Banco Master na Corte, ampliando o véu de opacidade sobre o caso.
Reações e críticas
A decisão do BC provocou reações imediatas na classe política e nas redes sociais. A vereadora Cristina Graeml (União-PR), pré-candidata ao Senado, criticou o sigilo afirmando:
“Por que esconder? Desde quando o segredo passou a ser regra no Brasil? Isso sim é um verdadeiro ataque à nossa democracia. Vale sempre lembrar: quem não deve não teme!”.
O senador Cleitinho (Republicanos-MG) também se manifestou, chamando a situação de “escárnio” e afirmando que iria “pra cima”, mesmo que isso pudesse custar caro. Outros parlamentares, como o deputado Julio Schneider (MDB-RS) e o Partido Novo, também questionaram o episódio, acusando o ministro de fazer lobby em favor da venda do Master ao BRB.
Implicações e próximos passos
O sigilo imposto pelo BC reforça suspeitas de interferência indevida em instituições financeiras, especialmente em um contexto de alegações de pressão política. O Tribunal de Contas da União (TCU) retirou recentemente uma investigação contra o BC no caso, o que alguns analistas veem como uma possível troca de favores para proteger envolvidos.
Congressistas já falam em abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o episódio, com foco em possíveis conflitos de interesse e violações à independência do BC. Enquanto isso, o Ministério Público Federal (MPF) analisa denúncias enviadas pelo BC sobre operações suspeitas no Master.
Especialistas em direito administrativo e economia enfatizam que a transparência é essencial para manter a credibilidade das instituições. O caso Banco Master continua a evoluir, com novas revelações podendo emergir nos próximos dias.