
A China está consolidando uma presença dominante na infraestrutura portuária da África, controlando ou influenciando diretamente cerca de um terço de todos os portos comerciais do continente. Essa expansão estratégica, impulsionada pela Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative – BRI), transforma Pequim em uma das principais potências marítimas globais com forte pegada no continente africano.
Um terço dos portos africanos sob influência chinesa
De acordo com o relatório “Mapping China’s Strategic Port Development in Africa”, publicado em março de 2025 pelo Africa Center for Strategic Studies (ACSS), estatais chinesas atuam como financiadoras, construtoras ou operadoras em 78 dos 231 portos comerciais existentes na África — o equivalente a aproximadamente 33% da infraestrutura portuária total do continente.
A presença é especialmente forte na África Ocidental (35 projetos), seguida pela África Oriental (17), Austral (15) e Norte (11). Países como Nigéria, Camarões, Togo, Guiné, Angola, Tanzânia e Djibuti concentram a maior parte dessas operações.
O modelo chinês: construção, financiamento e controle operacional
O padrão de atuação é bem definido. Empresas estatais como a China Communications Construction Corporation (CCCC) e sua subsidiária China Harbor Engineering Company (CHEC) vencem licitações internacionais, financiam os projetos por meio de bancos estatais chineses (principalmente o China Development Bank), assumem participação acionária relevante e obtêm concessões ou arrendamentos de longo prazo para operar os terminais.
Esse modelo garante à China não apenas retorno financeiro, mas também influência direta sobre fluxos comerciais estratégicos por décadas.
Caso emblemático: Porto de Lekki, na Nigéria
Um dos projetos mais simbólicos é o Porto de Águas Profundas de Lekki, na Nigéria. Inaugurado em 2022, foi projetado e construído pela CHEC, financiado por capital chinês e hoje tem 54% de participação acionária chinesa, com operação sob arrendamento de 16 anos.
O porto é um dos mais modernos da África Ocidental e processa grande volume de contêineres, petróleo, minérios e produtos agrícolas — quase todos direcionados ou oriundos do comércio com a China.
Djibuti: o hub comercial e militar chinês no Chifre da África
No Chifre da África, a influência chinesa atinge outro patamar. Em Djibuti, a China construiu e opera o porto comercial de Doraleh (com participação inicial de 23,5%) e, em 2017, inaugurou ao lado dele sua primeira base naval estrangeira — a única base militar permanente da China fora de seu território.
Djibuti fica estrategicamente posicionado no Golfo de Áden, próximo ao Estreito de Bab el-Mandeb e ao Canal de Suez, tornando-o ponto-chave para rotas marítimas globais.
Uso dual: comércio e projeção militar
Dos 78 portos com presença chinesa, 36 já receberam navios da Marinha do Exército de Libertação Popular (PLA Navy) para atracação, reabastecimento ou exercícios militares. Desde 2000, a PLA realizou 55 escalas em portos africanos e 19 exercícios bilaterais ou multilaterais.
Quase metade dos portos construídos ou operados pela China possui características técnicas (profundidade, comprimento de cais, capacidade de carga pesada) compatíveis com o uso por frotas navais, o que alimenta debates sobre possível uso dual (civil e militar).
Riscos para a soberania africana
Apesar dos benefícios evidentes — infraestrutura que muitos países africanos jamais teriam construído sem financiamento externo —, críticos apontam sérios riscos:
- Endividamento elevado em vários países
- Perda de controle sobre ativos estratégicos por períodos muito longos
- Possibilidade de uso político ou coercitivo da infraestrutura em disputas geopolíticas
Há ainda especulações sobre uma futura segunda base naval chinesa na África Ocidental, com portos em Angola, Namíbia ou Gabão sendo citados como possíveis candidatos.
Com a Iniciativa Cinturão e Rota evoluindo para projetos mais diversificados (incluindo energias renováveis), a influência chinesa na África só tende a crescer. O continente, repleto de recursos naturais mas carente de capital e infraestrutura, está cada vez mais conectado ao mundo — porém sob uma órbita fortemente puxada por Pequim.