Empreendedorismo Brasileiro

De médicos a profissionais de tecnologia: milhões de brasileiros estão transformando carreira em negócio

O Brasil vive uma onda histórica de formalização, impulsionada por profissionais que transformam carreira em empresa. Em uma década, o país abriu mais de 34 milhões de CNPJs e bateu recordes consecutivos na criação de novos negócios.

Empresas brasil

Todos os dias, milhares de brasileiros transformam conhecimento, experiência e vontade de crescer em um negócio próprio. É o médico que deixa de atender apenas como pessoa física e abre uma empresa para estruturar sua clínica; o advogado que formaliza sua atuação para ampliar sua carteira de clientes; o arquiteto que passa a atender projetos em diferentes regiões do país; o profissional de tecnologia que encontra na formalização uma forma de escalar seus serviços.

Essas histórias, multiplicadas milhões de vezes, ajudam a explicar um movimento que atingiu um recorde histórico: o Brasil nunca abriu tantas empresas quanto agora. Por trás de cada novo CNPJ existe uma decisão prática de alguém que encontrou na formalização uma oportunidade para organizar sua atividade, acessar novos mercados e transformar uma profissão em negócio.

Em 2025, o Brasil abriu mais de 5 milhões de empresas, o maior volume da história, com alta de 19,4% sobre 2024, de acordo com a análise da Contabilizei com base em dados públicos da própria Receita Federal. E o começo de 2026 mostra que não foi um pico isolado, no primeiro trimestre deste ano, foram 1,6 milhão de novos CNPJs, crescimento de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Traduzindo esses grandes números para o dia a dia, 2025 equivale a 13.800 novas empresas abertas por dia, ou seja, 575 por hora, incluindo fins de semana e feriados. Para trazer uma dimensão física a esse volume, as empresas abertas no ano passado lotariam mais de 63 estádios do Maracanã, um por semana, ao longo de todo o ano.

A composição no primeiro trimestre conta uma história interessante, serviços e indústria cresceram 14% cada, comércio avançou 9%. Entre os formatos, os MEIs subiram 15%, enquanto empresas de outros portes cresceram 7%. Não é um movimento concentrado apenas em um setor ou em um perfil de negócio. É um país inteiro migrando para a formalidade, em ritmos diferentes, mas na mesma direção.

Esse recorde não é um evento isolado. É a consolidação de uma mudança estrutural no comportamento do brasileiro, que entende, cada vez mais, a importância de formalizar as atividades econômicas que antes exercia como autônomo.

Uma década, 34 milhões de CNPJs e uma mudança de mentalidade

Para entender que não estamos diante de um fenômeno de um ano só, vale olhar para a última década. Nos últimos dez anos, o Brasil abriu mais de 34 milhões de CNPJs, um crescimento médio de 9,25% ao ano, que mais que dobrou o volume de aberturas desde 2016.

Mesmo em 2022, ano em que tivemos uma retração de 5% nas aberturas, o movimento não se desfez, o país seguiu abrindo, em média, 9.400 novas empresas por dia, todos os dias. Em dez anos, isso equivale a mais de 430 Maracanãs lotados.

Parte dessa transformação está ligada à digitalização, que ampliou as possibilidades para pequenos empreendedores e profissionais autônomos. Advogados, engenheiros, psicólogos, médicos e especialistas de diferentes áreas, que antes dependiam da presença local para exercer suas vocações, hoje conseguem atender clientes em qualquer lugar do país e até do mundo.

A formalização deixou de ser vista apenas como uma exigência burocrática e passou a funcionar como uma ferramenta estratégica de crescimento. Ter um CNPJ significa, para muitos profissionais, acessar novos clientes, organizar melhor a operação, emitir notas fiscais, estabelecer parcerias e construir uma trajetória empresarial de longo prazo.

O brasileiro não está formalizando apenas porque não tem alternativa, mas porque percebeu que a empresa pode ser uma vantagem competitiva real para sua profissão.

O pano de fundo: um país se organizando para acompanhar o próprio crescimento

Esse ritmo de formalização é tão intenso que está mexendo até com a estrutura que sustenta o cadastro empresarial brasileiro. O CNPJ, utilizado em formato exclusivamente numérico desde 1998, passará a combinar letras e números a partir de julho, na maior mudança no cadastro desde sua criação.

Mais de 70 milhões de cadastros de pessoa jurídica já foram emitidos. Em outras palavras: o Brasil formalizou tanto que o próprio sistema precisou ser ampliado para acompanhar esse movimento.

E essa onda deve continuar. Em agosto, entra em vigor em São Paulo a obrigatoriedade de emissão de nota fiscal por autônomos. Ao final do ano, termina o período de testes da Reforma Tributária. São movimentos que tendem a impulsionar ainda mais a formalização e reforçam algo que vejo acontecer todos os dias: cada vez mais brasileiros estão deixando a informalidade não apenas por obrigação, mas porque enxergam na organização empresarial uma oportunidade real de crescer.

No fim das contas, esses números mostram um Brasil que está confiando mais em si mesmo. Todo CNPJ novo representa uma aposta de alguém que decidiu transformar conhecimento, talento ou coragem em negócio próprio.

Se o sistema precisou ganhar letras para dar conta do volume, é porque o Brasil não vai parar de empreender tão cedo.

Por Guilherme Soares, vice-presidente executivo de operações da Contabilizei