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Desmistificando a mineração e o mecanismo de consenso proof-of-work

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Há quem seja avesso ao mercado de ativos digitais e criptomoedas em virtude das notícias de que costumam ser voláteis, além de supostamente agredirem o meio ambiente por conta do alto consumo de energia para a manutenção das redes blockchain que utilizam o mecanismo de consenso proof-of-work. Afirmações como “o consumo total de energia no Chile em um ano é igual ao consumo da rede Bitcoin no mesmo período” tendem a assustar o público em geral, pois os fazem pensar que uma rede com essa característica não terá espaço para crescer em um mundo onde a sustentabilidade está cada vez mais mandatória.

No entanto, neste artigo, desmistificaremos a mineração de bitcoin e de criptomoedas que usem o mecanismo de consenso Proof-of-Work, contornando essas e outras objeções quanto à essa classe de ativos.

1. ESG Investing

Entre os diversos tipos de investimento e classes de ativos que um investidor pode escolher para alocar o seu capital, existem os investimentos que se enquadram em uma categoria chamada Environmental, Social and Governance Investing (ESG Investing). Como o próprio nome revela, trata-se de um tipo de investimento que seja favorável ao meio ambiente, à sociedade e à governança.

Por exemplo, a ação de uma empresa que adota políticas para evitar mudanças climáticas (amigável ao ambiente), que beneficia a comunidade na qual opera (amigável à sociedade) e que possui uma liderança que garante transparência, segurança e direitos dos investidores (amigável à governança), pode ser considerado um ESG Investing. Nesse contexto, para a surpresa de muitos, o Bitcoin enquadra-se como um ESG Investing. Vamos entender o porquê.

2. Environmental: Bitcoin é sustentável

Mais de 50% da energia demandada pela rede Bitcoin provém de fontes renováveis — um marco atingido em setembro de 2023, segundo a Bloomberg Intelligence.

Uma série de fazendas de mineração já conseguem operar de forma 100% sustentável, sendo a escala dessa adoção uma questão de tempo.

Atestamos essa sustentabilidade aqui no Brasil, através do aproveitamento da energia proveniente do flare gas, o gas proveniente da extração de petróleo, por algumas empresas de mineração de bitcoin.

Ao utilizar esse gás, a mineração não só aproveita essa energia de modo útil, mas também evita que esses gases escapem para a atmosfera, o que influenciaria em mudanças climáticas.

É um processo que auxilia na redução da emissão de metano (CH4), um gás 80% mais intenso para o efeito estufa quando comparado ao dióxido de carbono (CO2), por minas de carvão e aterros sanitários.

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A empresa Aggreko, por exemplo, anunciou o primeiro projeto de flare gas no Brasil, segundo matéria da CoinTelegraph, disponível nesse link. A usina está situada no município de Linhares – ES e tem capacidade de 1,1 MW.

Outras empresas de destaque nesse sentido incluem Arthur Mining e Vespene Energy, ambas empenhadas em integrar fontes alternativas de energia em suas operações.

Além disso, a iniciativa da MintGreen e Lonsdale Energy Corp exemplifica a inovação em sustentabilidade. Juntas, desenvolveram aquecedores digitais que transformam o calor das fazendas de mineração em energia, proporcionando aquecimento sustentável para 100 edifícios em North Vancouver e contribuindo para a redução do efeito estufa.

Uma outra adoção, particularmente inteligente, é o aproveitamento da energia geotérmica em El Salvador, primeiro país a adotar o bitcoin como moeda legal. Em junho de 2021, Nayib Bukele, presidente de El Salvador, anunciou que criaria um espaço para minerar bitcoin com a energia barata, limpa e renovável vinda dos vulcões. É importante notar que embora chame atenção, não é um feitio inédito, já que a Islândia faz isso desde 2013, poucos anos após o início do bitcoin.

Mas não para por aí, uma das “Big Four” em auditoria, a KPMG, emitiu recentemente um relatório, onde atesta esses fatos e categoriza o Bitcoin como um ESG Investing.

Portanto, a mineração deve ser compreendida como uma atividade que possibilita o uso e monetização de diversos tipos de energia que anteriormente eram ociosos ou desperdiçados. Torna-se, assim, atrativo para países que possuem potencial energético, mas não possuem maneiras de comercializar e capitalizar esse potencial.

3. Social: Bitcoin traz diversos benefícios à sociedade

Bitcoin, uma rede de pagamentos global, tem se mostrado uma solução eficaz para reduzir os custos e os desafios associados às transações internacionais, especialmente em países em desenvolvimento. Nos países como Honduras e Haiti, onde as remessas internacionais representam uma parte significativa do PIB, os beneficiários frequentemente enfrentam desafios devido às elevadas taxas de transação e à inacessibilidade dos serviços financeiros. O Bitcoin, isento das taxas exorbitantes e dos atrasos característicos dos sistemas financeiros tradicionais, emerge como uma alternativa eficiente e acessível.

Além disso, a versatilidade da rede Bitcoin é evidenciada em suas aplicações diversificadas globalmente. Durante a guerra da Ucrânia com a Rússia, quase US$ 70 milhões foram arrecadados instantaneamente via Bitcoin, destacando sua eficácia em situações emergenciais.

Na África rural, o Bitcoin tem impulsionado a democratização do acesso à eletricidade, com fazendas de mineração incentivando a instalação de fontes renováveis de energia de geração de energia.

A rede não só promove a eficiência energética, mas também oferece uma alternativa para indivíduos e empresas protegerem suas remunerações da inflação e arbitrariedades governamentais, recebendo pagamentos em BTC.

Dessa forma, o Bitcoin não só resolve muitas das ineficiências dos sistemas financeiros tradicionais, mas também facilita respostas rápidas em crises humanitárias e promove a inclusão financeira e energética em escala global.

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4. Governance: Bitcoin é democrático e evita interesses concentrados

O fato de ser uma rede completamente descentralizada, isto é, não controlada por uma única autoridade ou entidade, torna democrática as decisões da evolução da rede, a partir do consenso de seus membros. Isso evita o risco de manipulação por interesses concentrados, caracterizando uma boa governança.

Além disso, temos uma notória camada de transparência, já que todas as operações na blockchain são públicas e auditadas por qualquer um, outro fator positivo no que se refere à governança.

Ainda, o software que alimenta a rede Bitcoin é de código aberto, o que significa que qualquer pessoa pode examiná-lo, contribuir para seu desenvolvimento e atestar sua segurança, que é garantida pelas validações dos blocos de transações, processo no qual envolve o mecanismo de consenso proof-of-work. Isso garante uma governança segura da rede, comprovada no decorrer de 14 anos de existência do Bitcoin.

5. Por que o alto consumo de energia não é um problema?
Atualmente, é estimado que mais da metade da energia usada na mineração de bitcoin vem de fontes renováveis. O Cambridge Bitcoin Electricity Consumption Index (CBECI), criado pela Universidade de Cambridge, estima que o consumo da rede Bitcoin seja de 123,53 TWh, menos de 0,50% da demanda global por energia elétrica, atualmente em cerca de 25343,00 TWh.

O uso de energia é vital para a segurança do Bitcoin. O consumo é modulado pelas capacidades de hardware disponíveis atualmente, que por sua vez vem evoluindo em ritmo acelerado para se tornarem mais eficientes, frente à lucratividade de apoiar a rede.

Apesar de não produzir mais equipamentos utilizados para mineração, vale destacar o caso da NVIDIA, cuja ação valorizou 1350% nos últimos 5 anos, o que se deve, em boa parte, pela atratividade da mineração.

6. Por que o Proof-of-Work é necessário?

A essa altura, você provavelmente já compreendeu que o Bitcoin é uma solução mais environmental friendly do que podia imaginar e que o proof-of-work não é o deal breaker que os críticos costumam pregar.

O Proof-of-Work (PoW) é vital no ecossistema do Bitcoin por garantir a integridade e segurança da rede. Apesar de ser criticado pelo consumo de energia, o PoW é um mecanismo que previne ataques e fraudes. Se um nó validador pudesse aprovar transações isoladamente, a rede se tornaria vulnerável a manipulações. O PoW exige um consenso coletivo, onde vários nós participam na validação de transações, tornando a rede descentralizada e segura.

Na prática, o PoW requer que os mineradores encontrem um hash específico que atenda a certos critérios para validar um bloco de transações. Esse processo consome uma quantidade significativa de energia, pois os mineradores precisam testar uma série de combinações antes de encontrar o hash correto.

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Na perspectiva da teoria dos jogos, atacar a rede Bitcoin não é economicamente viável. Um atacante precisaria controlar mais de 50% do poder computacional total da rede para ter sucesso, o que é altamente improvável e caro. Além disso, o atacante teria mais a ganhar contribuindo para a rede do que tentando atacá-la, graças aos incentivos econômicos incorporados no processo de mineração.

Portanto, o Proof-of-Work, apesar de energicamente intenso, é um componente crucial que sustenta a segurança e integridade da rede Bitcoin, com um histórico inabalável de resistência a hacks e manipulações ao longo de seus 14 anos de existência.

6. Conclusão e expectativas para o futuro

A evolução para uma blockchain mais amiga do ambiente é uma tendência observada não apenas na rede Bitcoin, mas em todas as blockchains que implementam o mecanismo de consenso proof-of-work. O ímpeto para aumentar a eficiência energética é um tema recorrente e prevê-se uma aceleração nesta direção conforme o mercado de ativos digitais ganha mais proeminência.

Contrariamente à percepção popular, a mineração de Bitcoin não é intrinsecamente prejudicial ao meio ambiente. Em comparação com setores tradicionais da economia, a rede Bitcoin é relativamente mais eficiente em termos de consumo de energia. A mineração não apenas se beneficia da utilização de fontes de energia renováveis e sustentáveis, mas também ajuda na mitigação das mudanças climáticas, capturando gases que, de outra forma, seriam prejudiciais ao ambiente.

Além disso, o lucrativo negócio de mineração está intrinsicamente ligado à demanda por energias renováveis. Há uma simbiose emergente onde a eficiência das operações de mineração está fomentando a inovação e a adoção de fontes de energia mais limpas, um fenômeno que tem o potencial de beneficiar outros setores e indústrias.

Apesar das críticas persistentes, a avaliação aprofundada da tecnologia blockchain revela um saldo de benefícios tangíveis. Os atributos intrínsecos de segurança, transparência e eficiência da blockchain, juntamente com sua crescente sustentabilidade, apresentam um argumento convincente para seu suporte continuado. A rede Bitcoin e outras criptomoedas não são apenas mecanismos financeiros, mas facilitadores de uma transformação mais ampla e positiva na gestão e utilização eficiente dos recursos globais.

Por: Ayron Ferreira – analista chefe da Titanium Asset com colaboração do estagiário Victor Lins

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