
- Bonds da Venezuela disparam, mas especialistas veem alto risco jurídico e político
- Gestores classificam o país como ininvestível, apesar do rali inicial
- México e Colômbia surgem como mercados mais sensíveis a uma reprecificação regional
A queda de Nicolás Maduro, após a intervenção dos EUA, provocou uma reação imediata nos mercados, com forte valorização dos títulos soberanos da Venezuela. Ainda assim, estrategistas recomendam cautela, afirmando que o risco segue elevado e que o país não é opção clara de investimento neste momento.
Especialistas ouvidos pela Bloomberg Línea avaliam que, apesar do rali inicial, a dívida venezuelana em default continua cercada de incertezas jurídicas, políticas e econômicas, o que limita qualquer estratégia de alocação estruturada.
Rali nos bonds, mas risco segue elevado
Os bonds venezuelanos com vencimento em 2027 subiram 29%, para cerca de US$ 0,43, após a captura de Maduro. O país está em default há oito anos, impactado por sanções americanas que isolaram a economia do mercado global.
Os títulos praticamente dobraram de valor no último ano, movimento iniciado após a eleição de Donald Trump e intensificado com a mudança de regime. Mesmo assim, o preço apenas retornou ao patamar anterior ao calote.
Para Luis Ferreira, CIO para as Américas do EFG, tratar a dívida venezuelana como oportunidade ignora a longa maratona jurídica da reestruturação. Segundo ele, a Venezuela soma cerca de US$ 60 bilhões em bonds inadimplentes, o que tende a arrastar o processo por anos.
Venezuela segue “ininvestível”, dizem gestores
Na avaliação de Daniel Utsch, da Nero Capital, a recente alta dos títulos não compensa o risco de default ainda embutido nos preços. Para ele, o país segue classificado como totalmente ininvestível.
Utsch afirma que tanto investidores estrangeiros quanto alocadores brasileiros não encontram justificativa para aporte, mesmo após a mudança política. Segundo o gestor, o cenário ainda precisaria melhorar de forma significativa.
Enquanto isso, na renda variável, o movimento mais visível ocorreu nas petroleiras americanas, após Trump sinalizar a intenção de revitalizar a indústria petrolífera venezuelana sob liderança dos EUA.
Petróleo, LatAm e riscos geopolíticos
A Chevron (CVX), única grande petroleira dos EUA em operação na Venezuela, subiu 5,1% no primeiro pregão após a queda de Maduro. ConocoPhillips (COP) e Exxon Mobil (XOM) avançaram 2,59% e 2,21%, respectivamente, mas passaram a operar em queda no pregão seguinte.
No cenário mais otimista, analistas veem uma Venezuela aberta a investimentos como potencial vetor de crescimento para a América Latina, além de possível pressão baixista nos preços do petróleo no longo prazo.
Ainda assim, segundo Paula Zogbi, da Nomad, até mesmo um aumento relevante da produção é incerto, já que não há garantia de que os planos de abertura do setor serão efetivamente implementados.
México e Colômbia no radar
Em um cenário mais adverso, o risco é de escalada geopolítica, com impacto negativo sobre ativos da América Latina, aumento da volatilidade do dólar e alargamento dos spreads.
O UBS BB avalia que México e Colômbia são os mercados mais suscetíveis à reprecificação, já que os pesos aparecem sobrevalorizados em 7% e 8%, respectivamente, nos modelos do banco.
Para o Brasil, o impacto tende a ser mais limitado, segundo o UBS, devido ao peso da economia, à relação com a China e à melhora recente no diálogo com os EUA. Ainda assim, Utsch alerta que o tema pode ganhar espaço no debate político doméstico, dependendo dos desdobramentos da operação.