
- Crédito privado perde apelo, mas ainda tem espaço como ferramenta de diversificação.
- Mercado antecipa corte da Selic em 2026, e investidores já reposicionam carteiras.
- Papéis atrelados ao IPCA ganham força, com juros reais acima de 8% ao ano.
A decisão do Banco Central de manter a Selic em 15% ao ano acendeu um alerta entre investidores: o ciclo de juros altos pode estar chegando ao fim. Apesar de o momento ainda favorecer retornos robustos, o mercado começa a se preparar para uma virada de cenário.
Especialistas afirmam que a renda fixa segue como o refúgio mais seguro e rentável do país, mas o foco já não é mais apenas o ganho nominal. O desafio agora é antecipar os movimentos do BC e reposicionar as carteiras para capturar o início do ciclo de cortes previsto para 2026.
Menos pós-fixados, mais IPCA+
De acordo com Andressa Bergamo, sócia da AVG Capital, o momento é de transição. “A Selic alta reforça o apelo da renda fixa, mas o investidor deve começar a reduzir a exposição aos pós-fixados e aumentar a fatia em títulos atrelados à inflação”, explica.
O movimento faz sentido: o Tesouro IPCA+ 2029 paga retorno real de 8,04%, enquanto o papel mais longo, com vencimento em 2060, entrega IPCA + 7,17%. Esses patamares chamam atenção porque oferecem proteção contra a inflação e bom desempenho em períodos de queda nos juros.
Para Victor Furtado, da W1 Capital, os títulos longos de inflação são os mais indicados agora. “Eles capturam mais ciclos e entregam resultados melhores, mesmo com taxa ligeiramente menor”, afirma.
Pós-fixados ainda resistem, prefixados pedem cautela
Apesar da migração gradual, os títulos pós-fixados continuam relevantes. O Tesouro Selic, por exemplo, segue entregando retornos reais elevados com risco quase nulo. “Ainda é a opção mais segura e previsível”, comenta Bergamo.
Os prefixados, por outro lado, exigem mais cautela. Embora possam se valorizar quando o mercado antecipa cortes na Selic, o cenário fiscal incerto e o período eleitoral no horizonte aumentam a volatilidade.
“O investidor deve evitar prazos longos, porque o risco fiscal do Brasil continua alto”, alerta Beto Saadia, economista-chefe da Nomos.
Guilherme Almeida, da Suno Research, reforça que o prefixado longo pode se tornar armadilha. “A curva longa é a que mais sofre com incertezas fiscais”, diz o analista.
Crédito privado perde apelo, mas ainda diversifica
O ambiente de juros altos por tempo prolongado também atinge o crédito privado, que perdeu parte do brilho frente aos títulos públicos. “Os spreads ficaram muito apertados, reduzindo o prêmio de risco que compensaria o investidor”, explica Saadia.
Mesmo assim, debêntures e CRIs/CRAs continuam sendo ferramentas de diversificação, desde que analisadas com cuidado. Almeida lembra que “a política monetária restritiva pressiona o caixa das empresas, e isso pode afetar a capacidade de pagamento dos emissores”.
A recomendação é evitar setores cíclicos, como o varejo, e dar preferência às debêntures incentivadas, especialmente quando há boa análise de risco. “São instrumentos interessantes, mas exigem atenção redobrada”, reforça o especialista.