
- Cloudflare acusa Google de usar monopólio das buscas para alimentar IA sem pagar.
- Novo modelo de busca reduz tráfego enviado a sites e ameaça o ecossistema digital.
- Ferramentas rivais fazem coletas ainda maiores, aprofundando a pressão sobre editores.
O CEO da Cloudflare, Matthew Prince, elevou o tom contra o Google ao afirmar que a empresa abusa de sua posição monopolista para coletar conteúdo da internet e treinar seus modelos de inteligência artificial, sem pagar aos sites responsáveis pelo material usado. A crítica ocorreu no palco do Web Summit, em Lisboa, e rapidamente dominou o debate sobre competição no setor.
Prince defendeu que a Alphabet deveria pagar pelos dados capturados, indicando que o novo modelo de respostas com IA reduz o tráfego enviado aos editores. Segundo ele, a prática ameaça o modelo de negócios de toda a web, sobretudo em um momento em que ferramentas como Gemini, OpenAI e Anthropic realizam coletas massivas de conteúdo.
Google mira IA enquanto reduz tráfego enviado aos sites
Durante a apresentação, Prince afirmou que o Google, dono de 90% do mercado de buscas, antes enviava um visitante para cada duas páginas rastreadas. Agora, envia apenas um visitante a cada 20 páginas. Para ele, o motivo é claro: a nova camada de “visão geral com IA” responde às perguntas diretamente na busca, reduzindo a necessidade de acessar sites externos.
Embora o Google defenda que o tráfego segue “estável” e diz que prioriza cliques de maior qualidade, Prince enxerga um movimento perigoso. O executivo lembrou que, ao perder visitantes, editores e pequenas empresas perdem capacidade de monetização, comprometendo uma cadeia inteira que depende de publicidade digital.
A situação fica mais tensa porque, segundo o CEO da Cloudflare, bloquear rastreadores de IA pode afetar até a performance de anúncios, algo que o Google nega. O ponto, porém, reforça a percepção de que o controle do tráfego coloca a empresa em posição privilegiada.
Ferramentas rivais coletam até 40 mil páginas por visita
Prince destacou também que o problema não se limita ao Google. Ferramentas de IA como OpenAI e Anthropic fazem coletas ainda mais agressivas. A OpenAI, segundo ele, chega a coletar 1.500 páginas para cada visita enviada aos sites, enquanto a Anthropic ultrapassa 40.000.
O executivo afirmou que, se essas plataformas não gerarem tráfego de retorno, o “modelo fundamental da internet vai colapsar”. Ele argumentou que todas as big techs reconhecem a necessidade de compensar os criadores, mas nenhuma quer ser a primeira a pagar enquanto o Google continua acessando conteúdo de graça.
Prince afirmou ainda que o Google admite, em conversas privadas, que deveria remunerar editores. No entanto, estaria “preso a um modelo antigo” enquanto compete contra empresas de IA que operam sob lógicas totalmente novas.
Acusação de abuso de monopólio reacende debate nos bastidores do setor
Para Prince, a disputa vai além da busca: trata-se de um uso estratégico da posição dominante para ganhar escala em IA. Ele afirmou que, ao usar o mesmo comando para bloquear rastreamento de IA e de indexação, o Google cria um “caminho sem saída” para editores que querem proteger seu conteúdo.
O Google, por outro lado, garante que o comando Google Extended permite bloquear IA sem impacto no ranking. Mesmo assim, parte da comunidade de SEO teme que limitar dados disponíveis pode reduzir a relevância de um site e, portanto, seu tráfego.
A denúncia reacende uma discussão silenciosa na indústria: com IA generativa dominando a web, quem paga a conta da informação usada para treinar esses sistemas?