
Em uma eleição marcada por polarização e temores crescentes com a criminalidade e a imigração irregular, o ultraconservador José Antonio Kast foi eleito presidente do Chile neste domingo (14), com cerca de 58% dos votos válidos, derrotando a candidata de centro-esquerda Jeannette Jara, que obteve 41,7%. A vitória, confirmada com mais de 95% das urnas apuradas, representa não apenas o retorno da direita ao poder chileno após quatro anos de governo esquerdista sob Gabriel Boric, mas também o ápice de uma guinada conservadora que varre a América Latina, isolando governos progressistas como o do Brasil.
Vitória da Direita no Chile
Kast, de 59 anos, advogado católico devoto e fundador do Partido Republicano em 2019, celebrou o resultado em Paine, sua cidade natal, prometendo um “governo de emergência” para restaurar a ordem. “Serei o presidente de todos os chilenos“, declarou o futuro mandatário, que assumirá em 11 de março de 2026. Sua campanha, em sua terceira tentativa presidencial, evitou polêmicas sociais extremas – como oposição radical ao aborto – e focou em pautas pragmáticas: repressão à imigração ilegal, com deportação de cerca de 340 mil estrangeiros (majoritariamente venezuelanos), corte de impostos corporativos de 27% para 23% e redução de US$ 6 bilhões em gastos públicos, sem mexer em benefícios sociais. Ele também almeja acelerar o crescimento econômico para 4%, ante os atuais 2,5%.
A candidata derrotada, Jeannette Jara, do Partido Comunista e ex-ministra do Trabalho de Boric, reconheceu a derrota em postagem no X (antigo Twitter), afirmando que “a democracia falou alto e claro” e parabenizando Kast por telefone. Apoiadores de Kast tomaram as ruas de Santiago com bandeiras chilenas, enquanto eleitores como um caminhoneiro de 74 anos e uma dona de casa de 44 anos citaram a segurança e o emprego como motivos para o voto, rejeitando o “comunismo” de Jara.
Contexto de uma eleição “anti-Boric”
A vitória de Kast reflete o desgaste do governo Boric, que assumiu em 2022 após os protestos de 2019, mas fracassou em reformar a Constituição herdada da ditadura de Augusto Pinochet – uma promessa central que minou seu apoio popular. Kast, abertamente admirador de Pinochet (a quem disse que o ditador “votaria nele se vivo”), capitalizou o aumento da percepção de insegurança: homicídios dobraram na última década no Chile, embora tenham começado a cair nos últimos dois anos. Crimes violentos, ligados a gangues como o Tren de Aragua (venezuelano), colombianas e peruanas, alimentaram o discurso linha-dura do candidato.
No primeiro turno, em 16 de novembro, Jara liderou com 26,9% contra 23,9% de Kast, mas o segundo turno ampliou a vantagem conservadora, com Kast vencendo em todas as 16 regiões do país. Analistas como Robert Funk alertam, porém, que o mandato não é “superforte”: muitos votos foram “anti-Jara” e contra o medo do comunismo, não necessariamente pró-Pinochet.
Onda azul avança: Da Argentina à Bolívia
A eleição chilena coroa uma sequência de reveses para a esquerda na região, equilibrando o mapa político da América do Sul – agora com sete governos de direita ou centro-direita contra sete de esquerda. A “onda azul“, como batizada por analistas, começou em 2023 com Javier Milei na Argentina, cujo governo libertário-anarcocapitalista cortou gastos radicais e alinhou-se a Donald Trump, reeleito nos EUA. Em outubro de 2024, a Bolívia pôs fim ao ciclo socialista de Evo Morales com a eleição de Rodrigo Paz, de centro-direita, em meio a crises econômicas e acusações de autoritarismo.
Outros exemplos recentes incluem a reeleição de Guillermo Lasso no Equador (2025), com foco em segurança contra narcotráfico, e a vitória de Luis Lacalle Pou no Uruguai, consolidando a direita moderada. Na Colômbia, o presidente Gustavo Petro enfrenta desgaste, com pesquisas apontando para 2026 como ano de possível reversão. “Crime e economia empurram eleitores sul-americanos à direita”, resume um relatório da Bloomberg, citando tanques de combustível vazios e violência urbana como catalisadores comuns.
Essa maré conservadora, segundo a analista Amanda Harumy, reflete influência externa: a onda de direita é pressionada por Trump, que busca restabelecer hegemonia americana contra a influência chinesa na região. Kast já sinalizou alianças com líderes como Giorgia Meloni (Itália), Nayib Bukele (El Salvador) e Viktor Orbán (Hungria), prometendo medidas restritivas em migração e segurança.
Isolamento do Brasil e desafios regionais
No Brasil, o fenômeno isola o governo Lula: a “onda de direita na América do Sul pressiona e isola o Brasil”, como alerta a Gazeta do Povo, alterando alianças econômicas e diplomáticas. Mercosul e Unasul, outrora progressistas, podem ganhar viés neoliberal, com foco em acordos bilaterais pró-EUA.
No Chile, Kast enfrenta um Congresso dividido e pouca experiência em negociações, o que pode frear promessas. “É o governo mais à direita desde Pinochet“, avisa a DW, mas sem maioria absoluta, dependerá de coalizões.
A vitória de Kast não é só chilena: é um alerta para a região de que insegurança e estagnação econômica podem varrer governos progressistas, pavimentando uma era de conservadorismo.