
O caso do Banco Master gerou uma das mais graves crises institucionais recentes no Brasil, colocando em choque o Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Federal (PF), o Banco Central (BC) e o Tribunal de Contas da União (TCU). No centro dessa tensão está o ministro Dias Toffoli, relator do processo no STF, cujas decisões e críticas intensas à atuação da PF provocaram um embate sem precedentes, defendendo interesses ligados ao banco liquidado e gerando acusações de interferência indevida.
O que aconteceu com o Banco Master?
O Banco Master, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro, foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025. A medida veio após anos de alertas (intensificados em 2024) sobre irregularidades graves: crescimento anormal com taxas atípicas, reavaliação indevida de fundos da Reag (que gerou rentabilidades extraordinárias, como um fundo que multiplicou patrimônio em 30 mil vezes em 20 dias) e empréstimos direcionados a aplicações de alto risco e rendimento incerto.
A liquidação visou proteger o sistema financeiro e evitar contágio maior. Vorcaro chegou a ficar preso preventivamente por 12 dias em novembro e, desde o final do mês, usa tornozeleira eletrônica. A Polícia Federal abriu a Operação Compliance Zero para investigar suspeitas de fraudes bilionárias.
A intervenção de Toffoli e o início da crise
Dias Toffoli assumiu a relatoria após pedido da defesa de Vorcaro e de diretores do banco, transferindo o inquérito para o STF, impondo sigilo total e centralizando decisões. Em janeiro de 2026, ele autorizou (em decisão sigilosa de 7 de janeiro) a segunda fase da operação da PF contra Vorcaro, seu cunhado Fabiano Zettel e Nelson Tanure, com mandados em 42 endereços, apreensões de veículos de luxo (R$ 16 milhões), armas, celulares, computadores e dinheiro.
No entanto, Toffoli criticou duramente a PF por suposta “inércia” e “falta de empenho” no cumprimento de prazos (determinou execução em 24 horas a partir de 13 de janeiro). Ele chegou a ordenar que as provas apreendidas fossem lacradas e armazenadas no STF (em vez de irem diretamente para perícia da PF), entregando-as à PGR — medida que gerou preocupação na PF sobre prejuízos à cadeia de custódia, perda de dados e inviabilização da investigação. Após repercussão e manifestação da PF, Toffoli recuou parcialmente.
Tensão com o BC e choque com o TCU
O Banco Central, presidido por Gabriel Galípolo, defendeu a liquidação como medida técnica e necessária para preservar a estabilidade financeira. O BC rejeitou proposta de compra pela Fictor e enfrenta questionamentos do TCU (ministro Jhonatan de Jesus) sobre suposta demora nos alertas (desde 2019) e precipitação na liquidação.
O TCU anunciou inspeção, gerando temor de reversão da decisão — o que poderia criar precedente perigoso de ingerência política no regulador. Após negociações, houve trégua: o TCU limitou a análise a documentos pré-liquidação, e o BC retirou recurso contra a inspeção.
Reação do mercado e bancos
Em meio ao caos, o setor financeiro se uniu de forma inédita. A Febraban e entidades bancárias divulgaram nota conjunta defendendo a independência técnica do BC, afirmando que intervenções externas criam insegurança jurídica, elevam riscos morais e podem pressionar juros e investimentos. Bancos privados manifestaram plena confiança nas decisões prudentes do BC.
Uma crise inédita
Para defender interesses ligados ao Banco Master, Toffoli provocou uma crise institucional inédita: irritou a PF com acusações públicas e medidas restritivas às provas; desagradou o BC ao questionar sua autonomia via conexões indiretas e acareações; e ampliou o mal-estar com o TCU em meio a embates regulatórios. O episódio expõe fissuras entre poderes, com riscos de anulação de provas, insegurança no sistema financeiro e questionamentos sobre imparcialidade (inclusive sugestões de suspeição de ministros do STF por vínculos pessoais).
O caso Master deixou de ser apenas uma fraude bancária para se tornar um teste de fogo para a independência das instituições brasileiras em 2026.