
O prazo para entrega da declaração do Imposto de Renda 2026 encerra às 23h59 desta sexta-feira, 29 de maio, e cerca de 30% dos contribuintes esperados ainda não enviaram o documento. A Receita Federal espera receber 44 milhões de declarações, mas até agora pouco mais de 31,5 milhões foram entregues. O que a maioria desses 12 milhões de contribuintes não sabe é que, independentemente de declararem ou não, o Fisco já tem suas informações. E é exatamente isso que torna a correria das últimas horas mais perigosa do que parece.
“A Receita Federal não está esperando o contribuinte declarar para descobrir o que ele ganhou. Ela já sabe. Sabe o salário, sabe os investimentos, sabe as movimentações bancárias. O que ela está esperando é ver se o que o contribuinte vai dizer bate com o que ela já tem. Quem declara errado na pressa está essencialmente contradizendo um sistema que já tem a resposta”, explica a contadora e consultora tributária Wilquiane Santos.
O aviso tem respaldo no que 2026 revelou sobre a nova infraestrutura de fiscalização do Fisco. A extinção da DIRF mudou completamente a lógica de envio e cruzamento de dados no país. Com a migração para o eSocial e a EFD-Reinf, as informações de empresas passaram a chegar à Receita mensalmente, e não mais uma vez por ano. O resultado prático é um sistema que cruza dados quase em tempo real e que já mostrou sua eficiência neste ano. No início do prazo de entrega do IR 2026, 19,3% dos declarantes caíram na malha fina, percentual que depois recuou para 10,6% após a identificação de falhas nas informações pré-preenchidas vindas das próprias empresas.
Somente por divergências de informações, cerca de 260 mil contribuintes já tiveram suas declarações retidas pela Receita Federal em 2026 e no último exercício consolidado, aproximadamente 1,4 milhão de declarações ficaram na malha fina por diferentes motivos. Para Wilquiane, esses números têm um significado direto para quem vai declarar agora, nos últimos dias.
“O sistema está mais sofisticado e o volume de retenções aumentou. Quem declara na reta final, sem revisar, sem conferir, sem comparar o que tem em mãos com o que as fontes pagadoras já informaram à Receita, está entrando num campo minado.”
Os erros mais comuns identificados pela Receita incluem classificação incorreta de rendimentos, confusão entre salário, 13º salário e férias, duplicidade de valores em despesas médicas e planos de saúde, e divergências entre o que é tributável e o que é isento. Wilquiane acrescenta um alerta específico para os contribuintes que dependem da declaração pré-preenchida: a orientação da Receita é clara: não confie cegamente nos dados pré-preenchidos, pois erros de empresas no eSocial contaminam automaticamente a declaração do contribuinte. “A declaração pré-preenchida é um ponto de partida, não uma garantia. Quem assina sem conferir está assumindo os erros do empregador como se fossem seus.”
Além do risco fiscal, há uma perda financeira concreta para quem ainda não declarou. As declarações restituídas já somam 9,6 milhões até maio, totalizando mais de R$ 17,8 bilhões pagos e 62% das declarações enviadas estão aptas à restituição. Quem declara agora, nos últimos dias, entra automaticamente nos lotes finais e aguarda até agosto para receber valores que são seus por direito. “Cada dia que passa na fila da restituição é dinheiro parado que poderia estar trabalhando para o contribuinte. A urgência não é só de prazo: é financeira.”
Para quem está sem toda a documentação necessária, a especialista é direta: “Transmita com o que você tem. Garanta o protocolo dentro do prazo. Depois, envie a retificadora com calma e sem multa adicional. O erro não corrigível não é a declaração incompleta — é a declaração não entregue.”