
O presidente Lula tem celebrado publicamente uma suposta redução histórica na desigualdade no Brasil, apontando para dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que indicam os menores níveis de pobreza e desigualdade em 30 anos. No entanto, um relatório global recente do World Inequality Lab (WIL), divulgado em dezembro de 2025, contesta veementemente essas afirmações, revelando que a concentração de renda entre os mais ricos aumentou entre 2014 e 2024, tornando o país ligeiramente mais desigual. Essa discrepância levanta questionamentos sobre a veracidade das narrativas do governo e a confiabilidade dos dados oficiais. A seguir, explicamos o que está em jogo, com base em análises de diversas fontes.
As celebrações do governo Lula
Em novembro de 2025, o Ipea publicou uma nota técnica afirmando que “o Brasil encerrou 2024 com os menores índices de pobreza, extrema pobreza e desigualdade desde 1995”. Segundo o estudo, o coeficiente de Gini – uma medida padrão de desigualdade – caiu de 61,5 em 1995 para 50,4 em 2024, uma redução de quase 18%. A renda média mensal per capita subiu de R$ 1.191 para R$ 2.015 no mesmo período, impulsionada por programas como o Bolsa Família expandido e o crescimento do emprego formal.
Lula e aliados não perderam tempo em propagar esses números. Em uma postagem no X em 3 de dezembro, o presidente declarou que os dados complementam “a saída do Brasil do Mapa da Fome e do Mapa da Pobreza”, sinalizando “mais oportunidades e menos desigualdade”. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, ecoou o tom otimista, afirmando que o governo “governa para o povo”. Em um pronunciamento natalino, Lula reforçou conquistas como a menor taxa de desemprego da história e recordes em empregos com carteira assinada, pintando um quadro de vitória para o “povo brasileiro”.
O relatório global que desmente as alegações de Lula
Contrariando essa narrativa, o World Inequality Report 2026, produzido pelo WIL – um laboratório internacional de pesquisa em desigualdade, com participação de economistas como Thomas Piketty –, mostra um aumento na concentração de renda no Brasil. De acordo com o estudo, a parcela da renda nacional detida pelos 10% mais ricos subiu de 57,9% em 2014 para 59,1% em 2024, após um pico de 59,9% em 2021. Já os 50% mais pobres viram sua fatia cair de 10,7% para 9,3% no mesmo intervalo, com uma recuperação parcial após o fundo do poço em 2021 (8,2%). Um índice de desigualdade (participação dos 10% ricos dividida pela dos 50% pobres) saltou de 53,7 para 63,5, posicionando o Brasil entre os países mais desiguais do mundo.
O relatório vai além: revela que os 0,001% mais ricos concentram três vezes mais riqueza do que os 50% mais pobres, expondo uma “desigualdade extrema”. O Brasil ocupa o quinto lugar em desigualdade de renda entre 216 países analisados. Publicações como a Revista Veja e G1 destacam que o estudo internacional contesta diretamente o entusiasmo do governo, questionando se o Brasil realmente vive “uma nova realidade”, como afirmou Lula.
As diferenças metodológicas: por que os dados divergem?
A raiz da controvérsia está nas metodologias. O Ipea baseia-se exclusivamente na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, que coleta dados autodeclarados em visitas domiciliares. Esse método subestima a renda dos mais ricos, pois ignora ganhos com investimentos e capitais – fontes principais para o topo da pirâmide – e depende de respostas voluntárias, difíceis em residências de alta renda.
Já o WIL combina dados da Pnad com declarações fiscais da Receita Federal e contas nacionais, corrigindo subestimações. Para 2024, faz extrapolações conservadoras, já que dados fiscais vão até 2023. Especialistas como Guilherme Klein, professor da Universidade de Leeds e do Made/USP, criticam o Ipea por não usar dados fiscais, essenciais para medir o 1% ou 0,1% mais rico. Pedro Herculano Souza, autor do estudo do Ipea, admite limitações, como a subestimação de transferências informais e rendas financeiras, e planeja incorporar dados fiscais atualizados. No entanto, ele justifica a escolha pela Pnad pela sua atualização trimestral, ideal para análises pós-pandemia.
Estudos anteriores do próprio WIL já apontavam para desigualdades persistentes no Brasil, combinando contas nacionais e fiscais para revelar que estatísticas oficiais captam apenas parte da renda real. A pandemia agravou o problema: os ricos se protegeram melhor com reservas econômicas, enquanto os pobres sofreram mais.