
A Polícia Federal (PF) identificou menções ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli em dispositivos eletrônicos do empresário Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, e solicitou a declaração de suspeição do magistrado no caso envolvendo a instituição financeira. O material foi entregue ao presidente do STF, Edson Fachin, em reunião realizada na segunda-feira (9), e inclui conversas atribuídas a Vorcaro com Toffoli, além de referências a parlamentares e outras figuras com ou sem foro privilegiado.
Citações a políticos e juízes
De acordo com relatórios da PF, as perícias nos celulares de Vorcaro revelaram citações a políticos desde 2022, incluindo deputados, senadores e pelo menos um presidente de partido. Algumas mensagens mencionam possíveis pagamentos relacionados a Toffoli, o que reacendeu debates internos no STF sobre a permanência do ministro como relator do processo do Banco Master. O caso envolve a liquidação extrajudicial do banco, decretada em novembro de 2025, e alegadas fraudes que geraram prejuízos estimados em R$ 47,3 bilhões, o maior rombo da história bancária brasileira.
A PF propôs a abertura de três novas frentes de investigação: uma sobre a tentativa de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB), e outras relacionadas a supostas irregularidades financeiras. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, apresentou pessoalmente os documentos a Fachin, classificando o encontro como “fluxo processual ordinário”.
Em resposta, o gabinete de Toffoli classificou o pedido da PF como baseado em “ilações” e questionou a legitimidade da instituição para formular tal solicitação, argumentando que a PF não é parte no processo, conforme o artigo 145 do Código de Processo Civil. O ministro afirmou que responderá diretamente ao presidente da Corte e negou qualquer impedimento para julgar o caso principal, tendo redistribuído inquéritos relacionados a instâncias inferiores. Toffoli tem enfrentado pressões de advogados do Banco Master, do Executivo e do Legislativo para se afastar, mas recebeu apoio público de colegas como Fachin e Gilmar Mendes.
Ligações de Toffoli com o Banco Master
O caso do Banco Master tem gerado controvérsias adicionais em torno do ministro Dias Toffoli, relator do processo no STF, devido a indícios de ligações pessoais e financeiras com o empresário Daniel Vorcaro e seu entorno. Relatórios da Polícia Federal apontam para conversas telefônicas entre Toffoli e Vorcaro, além de menções a possíveis repasses financeiros ligados ao resort Tayayá, empreendimento da família do ministro.
Em 2021, uma participação no resort foi vendida a um fundo administrado por familiares e sócios próximos de Vorcaro, e Toffoli admitiu ter recebido valores da empresa Maridt (dona do imóvel) como sócio, afirmando que os repasses eram regulares e declarados. Mensagens periciadas no celular de Vorcaro também fazem referência a pagamentos cifrados envolvendo o magistrado e terceiros, o que motivou a PF a questionar sua imparcialidade.
Outro episódio que intensificou as críticas foi a viagem de Toffoli em jatinho privado do empresário Luiz Osvaldo Pastore, em novembro de 2025, rumo à final da Copa Libertadores em Lima, no Peru. No mesmo voo estava o advogado Augusto Arruda Botelho, que representa um diretor investigado no caso do Banco Master.
A viagem ocorreu pouco antes de Toffoli impor sigilo máximo ao inquérito e assumir o controle total das investigações, atendendo a pedidos da defesa de Vorcaro. Esses fatos, somados às decisões monocráticas do ministro — como a avocação do processo para o STF e a retenção de provas —, têm sido apontados por críticos como indícios de conflito de interesses, ampliando o desgaste institucional do Supremo em meio ao maior escândalo financeiro da história recente do país. O gabinete de Toffoli classificou as acusações como “ilações” sem respaldo jurídico, mas o episódio continua a gerar debates sobre transparência e imparcialidade no Judiciário.
Credibilidade do STF em xeque
Ministros do STF, em conversas reservadas, admitem que o episódio eleva o risco político do caso e amplifica a pressão sobre a Corte, mas pedem cautela para avaliar o real envolvimento de Toffoli antes de decisões precipitadas. A defesa de Vorcaro criticou vazamentos seletivos de informações, alegando prejuízo ao direito de defesa.
O acesso aos dados criptografados do celular de Vorcaro gerou pânico em Brasília, com temores de que o material revele conexões mais amplas entre o setor financeiro e esferas políticas. A Procuradoria-Geral da República (PGR) já havia rejeitado questionamentos semelhantes à imparcialidade de Toffoli no passado. O STF ainda não definiu os próximos passos, mas o caso pode impactar reformas no mercado financeiro, criticadas por Toffoli como tímidas por parte do Banco Central e da CVM.