
- Alívio depende de cortes mais fortes na Selic, algo que o mercado não projeta no curto prazo.
- Selic em 15% derruba R$ 12,4 bilhões dos resultados de tesouraria dos grandes bancos.
- BBAS3, ITUB4, BBDC4 e SANB11 enfrentam custo de captação mais alto e descompasso entre depósitos e crédito.
Os resultados de tesouraria dos maiores bancos do país recuaram R$ 12,4 bilhões nos nove primeiros meses de 2025, refletindo o impacto direto da Selic em 15%, o nível mais alto em quase duas décadas. O aperto nos ganhos mostra que o custo de captação avançou mais rápido que a capacidade de reajustar as carteiras de crédito.
Ainda que o mercado esperasse pressão, o tombo surpreendeu analistas, já que o modelo bancário brasileiro depende de um casamento eficiente entre depósitos pós-fixados e crédito majoritariamente pré-fixado. Com juros tão altos, esse equilíbrio se perde e corrói a rentabilidade.
Pressão imediata com juros elevados
Os bancos explicam que a disparidade entre depósitos atrelados à Selic e crédito pré-fixado aumentou o custo de carregamento das carteiras. Assim, cada ciclo de alta monetária reduz a margem, principalmente em produtos como financiamento imobiliário e crédito para automóveis.
O Santander Brasil (SANB11) registrou um prejuízo de R$ 1,98 bilhão na linha de mercado, revertendo o ganho do ano anterior. O banco, porém, afirma que o impacto teria sido maior sem o hedge iniciado em 2024, ainda em fase de maturação.
Além disso, a sensibilidade das instituições à Selic cresceu após o fim do overhedge, que antes gerava ganhos relevantes em ambientes de juros altos. Desde 2021, esse mecanismo deixou de existir, ampliando as perdas nas tesourarias.
Efeitos amplificados no exterior
O Itaú Unibanco (ITUB4) enfrenta custos maiores para proteger seu capital alocado em países como Chile e Colômbia. O diferencial de juros mais que dobrou, embora o banco tenha elevado seu guidance de resultados para até R$ 3,5 bilhões neste ano, sustentado por uma margem de mercado mais estável.
O Banco do Brasil (BBAS3), dono do banco argentino Patagonia, também sente os efeitos da alta dos juros na captação. A migração de clientes para depósitos mais rentáveis reduziu o volume da poupança, tradicional e barata fonte de funding.
Com a competição mais intensa, o BBAS3 depende cada vez mais de depósitos a prazo, que encarecem rapidamente quando a Selic sobe. Esse novo padrão torna o custo de captação mais volátil e pressiona o resultado operacional.
Sem alívio à vista para a margem de mercado
O Bradesco (BBDC4) e o Santander reforçam que uma recuperação rápida depende de uma queda mais intensa da Selic, algo que as expectativas não precificam para 2026. Sem esse alívio, os bancos continuam ajustando seus hedgeamentos e reduzindo risco.
Apesar do aperto, executivos afirmam que as instituições seguem capitalizadas. Ainda assim, o desempenho de mercado não deve voltar ao nível de 2023 enquanto o juro permanecer acima de dois dígitos, condição que limita o avanço da margem financeira.
Como resultado, a estratégia dos bancos se concentra em proteger balanços e renegociar carteiras, movendo-se com cautela num cenário de volatilidade e crescimento lento.