
Em um cenário onde o mercado jurídico brasileiro chega perto da marca de 1 milhão de advogados e a concorrência se torna cada vez mais acirrada, a necessidade de reinvenção na advocacia deixou de ser uma opção para se tornar uma questão de sobrevivência. Foi neste contexto de saturação e busca por novos modelos de negócio que nasceu, em 2020, o Coetus, consolidando-se como o primeiro coworking jurídico do país.
A fundação do espaço, liderada pelo CEO Bruno Santiago e sua sócia (e esposa), Dra. Giulliana Palmares, não seguiu o roteiro tradicional das grandes bancas de advocacia herdadas de gerações passadas.
Pelo contrário, a gênese do empreendimento surgiu da própria dificuldade enfrentada pelos fundadores em se estabelecerem como profissionais autônomos em um mercado hostil para quem não possui sobrenomes renomados ou grandes capitais iniciais.
A origem: do inconformismo ao “mate na praia”
A ideia que daria origem ao Coetus não nasceu em uma sala de reuniões corporativa, mas sim em um momento trivial, tipicamente carioca: durante uma conversa na praia, regada a mate gelado. Na ocasião, Bruno Santiago, ainda estudante de Direito na UFRJ, conversava com sua então colega de apartamento sobre as barreiras intransponíveis para montar um escritório próprio.
A lista de obstáculos era extensa e comum à vasta maioria da classe: a especulação imobiliária tornava o aluguel de salas comerciais proibitivo nas grandes capitais; os contratos exigiam garantias financeiras inviáveis; e as faculdades de Direito, focadas excessivamente na teoria processual, falhavam em ensinar gestão, marketing ou vendas.
Aquele inconformismo inicial, compartilhado posteriormente com Giulliana Palmares, transformou-se em um plano de negócios robusto. O objetivo era claro: criar um ecossistema que permitisse ao advogado assumir o protagonismo de sua carreira, sem depender das amarras da “velha advocacia” – um sistema descrito pelos fundadores como um vírus que transforma vocação em rotina e liberdade em prisão.

Desafios de 2020: empreendendo na pandemia
O caminho para materializar o primeiro escritório compartilhado advogado do Brasil enfrentou seu maior teste logo no ano de estreia. Com a inauguração planejada para março de 2020, o projeto colidiu frontalmente com o início da pandemia de COVID-19 e as medidas de lockdown.
Com as obras paralisadas e o acesso ao prédio bloqueado, o que poderia ter sido o fim do negócio acabou se tornando, ironicamente, um catalisador para a validação do modelo. A pandemia acelerou a digitalização dos tribunais e forçou a advocacia a repensar a necessidade de grandes estruturas físicas fixas, validando a tese de flexibilidade proposta pelo Coetus.
Quando as portas finalmente se abriram em outubro de 2020, o mercado jurídico já havia mudado, e a demanda por espaços colaborativos e tecnologicamente preparados mostrou-se latente.
Um manifesto por uma nova advocacia: muito além do espaço físico
A consolidação do Coetus revelou que a dor do advogado brasileiro não era apenas imobiliária, mas cultural. O coworking jurídico evoluiu rapidamente para um ecossistema focado no combate ao que os fundadores denominam de “velha advocacia” – uma mentalidade descrita como um vírus que contamina desde estagiários até sócios, transformando a vocação jurídica em uma rotina estafante e solitária.
A proposta do escritório compartilhado passou a ser regida por um manifesto claro: devolver o protagonismo ao advogado. Diferente das salas comerciais isoladas, o ambiente foi desenhado para fomentar negócios e parcerias, operando sob a lógica de que o dinheiro deve ser consequência de um bom trabalho e de uma reputação sólida, e não de práticas que prejudiquem o profissional.
Essa filosofia atraiu profissionais que buscavam modernizar suas práticas. Dentro do Coetus, a comunidade acelerou a adoção de inovações que, em escritórios tradicionais, levariam anos para serem implementadas.
O espaço tornou-se um laboratório prático para o uso de ferramentas digitais, a realização de webinários, a contratação de correspondentes à distância e a utilização de tráfego pago para prospecção ética de clientes.
Ao reunir perfis inconformados com o status quo, o Coetus criou uma rede de apoio onde parcerias nascem naturalmente nos corredores. O resultado é uma comunidade que não apenas divide custos, mas que luta coletivamente por uma advocacia mais forte, humana e vanguardeira, onde a liberdade profissional e a qualidade de vida deixaram de ser utopias para se tornarem a regra do negócio.
A quebra de paradigmas e a validação sênior
Embora o plano de negócios inicial mirasse os jovens advogados – os mais afetados pela falta de estrutura -, a realidade surpreendeu os fundadores. A prova de que o conceito de coworking jurídico transcendia a questão geracional veio com o primeiro cliente da casa: Dr. Wilson Sleiman Nasser.
Na época com 68 anos, e com um currículo que incluía a defesa de gigantes como Odebrecht, Coca-Cola e Andrade Gutierrez, Dr. Nasser tornou-se a “prova social” viva do empreendimento. Sua adesão demonstrou que a busca por um ambiente colaborativo, livre de burocracias operacionais e focado no networking, atraía não apenas iniciantes, mas também juristas seniores em busca de eficiência e modernidade.
Hoje, o Coetus atua não apenas como um espaço físico, mas como uma comunidade que abriga mais de 150 escritórios, reafirmando seu manifesto de que a advocacia deve ser exercida com coragem, liberdade e protagonismo, permitindo que cada profissional “advogue do seu jeito”.