
Em uma decisão unânime tomada nesta quarta-feira (10), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) manteve a taxa básica de juros, Selic, em 15% ao ano pela quarta vez consecutiva. O patamar, o mais alto desde julho de 2006, reflete a postura restritiva adotada ao longo de 2025, período em que nenhum dos sete diretores indicados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) votou pela redução da taxa.
A manutenção ocorre em meio a um cenário de inflação controlada, mas com expectativas desancoradas e resiliência no mercado de trabalho, segundo o comunicado oficial do Copom. O colegiado argumenta que a estratégia é necessária para ancorar as projeções inflacionárias no centro da meta de 3% ao ano, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
Diretores de Lula: apoio total à taxa elevada
Dos nove membros do Copom, sete foram nomeados por Lula, garantindo maioria governista desde janeiro de 2025. Em todas as oito reuniões realizadas no ano, esses indicados votaram de forma alinhada para elevar a Selic de 12,25% para 15% e, posteriormente, mantê-la nesse nível. Nenhum defendeu corte, contrariando críticas iniciais do governo às altas taxas herdadas da gestão anterior, sob Roberto Campos Neto.
Os diretores indicados por Lula são:
- Gabriel Galípolo, presidente do BC;
- Ailton Aquino, diretor de Fiscalização;
- Gilneu Vivan, diretor de Regulação;
- Izabela Moreira Correa, diretora de Cidadania e Supervisão de Conduta;
- Nilton David, diretor de Política Monetária;
- Paulo Picchetti, diretor de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos;
- Rodrigo Alves Teixeira, diretor de Administração.
Os dois restantes, Renato Dias de Brito Gomes (Organização do Sistema Financeiro e Resolução) e Diogo Abry Guillen (Política Econômica), foram indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e encerram mandatos em 31 de dezembro de 2025. Com novas nomeações, o Copom será integralmente composto por indicados de Lula a partir de 2026, o que pode sinalizar uma postura mais dovish (flexível) nos juros, segundo analistas.
Motivos para a manutenção: incertezas e pressões internas
O Copom justificou a decisão citando “elevada incerteza” no ambiente externo, influenciada pela conjuntura nos Estados Unidos e tensões geopolíticas, além de um mercado de trabalho “resiliente” no Brasil. Apesar da inflação em trajetória de moderação – com o IPCA no teto da meta e crescimento econômico desacelerando para 0,1% no terceiro trimestre –, o comitê alerta para riscos de alta nos preços de serviços e expectativas inflacionárias acima da meta (4,4% para 2025 e 4,1% para 2026, segundo o Boletim Focus).
“Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, seguem mais elevados do que o usual”, afirmou o comunicado, reforçando a necessidade de uma política “significativamente contracionista por período bastante prolongado”.
Críticos, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), argumentam que a decisão ignora sinais positivos, como a queda da inflação e o arrefecimento da atividade econômica, o que poderia justificar cortes imediatos para estimular investimentos e competitividade industrial. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) vai além, acusando o BC de priorizar o “rentismo” em detrimento do crescimento e do emprego.
Reação do governo: pressão contida e olhares para 2026
O governo Lula expressou insatisfação com os juros altos, que impactam diretamente a estratégia de estímulo ao consumo e investimentos. O presidente tem se queixado em conversas privadas da manutenção da Selic, enquanto o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já indicou que votaria por reduções se estivesse no colegiado. A decisão de hoje, porém, não trouxe sinalizações de corte iminente, o que pode intensificar cobranças – especialmente com as eleições de 2026 no horizonte.
Analistas preveem que as novas indicações para o BC influenciarão o próximo ciclo de juros. “A pressão terá influência direta na escolha de Lula para substituir os diretores”, avalia uma coluna da Folha de S.Paulo, destacando o “balde de água fria” para o Planalto.
“Lula presidente dos banqueiros”
No mercado, a reação foi mansa: o dólar fechou em leve alta, e as projeções do Focus mantêm a Selic em 15% até o fim do ano, com cortes tímidos só em meados de 2026. No X (antigo Twitter), usuários criticaram o governo:
“Lula presidente dos banqueiros”, ironizou um perfil, enquanto outro apontou: “Sem disciplina fiscal, o BC mantém os juros altos”.
Perspectivas para o ano que vem
Com o Copom sob controle total de Lula a partir de janeiro, o debate sobre uma Selic mais baixa ganha força. No entanto, o “kit reeleição” – pacote de R$ 250 bilhões em medidas fiscais expansionistas – pode pressionar a inflação, forçando o BC a prolongar a restrição monetária. O Brasil segue com a segunda maior taxa real de juros do mundo (9,74%, atrás apenas da Turquia), atraindo capitais estrangeiros, mas paralisando o crédito interno.
A ata da reunião, a ser divulgada na próxima terça (16), deve trazer mais detalhes sobre o horizonte. Por enquanto, a mensagem é clara: em 2025, os indicados de Lula priorizaram a estabilidade de preços sobre o afrouxamento monetário.
Esta matéria é baseada em fontes oficiais e análises de mercado. Atualizações podem ocorrer conforme novas informações.