
A Play Store está cheia de VPNs. A maioria promete privacidade, mas poucas realmente entregam algo próximo do que dizem.
O GnuVPN chamou minha atenção por dois motivos específicos: uma política de “sem logs” mais rígida do que o normal e um selo Google Verified que é um diferencial pouco comum entre VPNs disponíveis na Play Store.
Passei algumas semanas testando o serviço em um celular Android e em um notebook com Windows, alternando entre Wi-Fi doméstico, dados móveis e redes públicas de hotéis e cafés. O objetivo era simples: ver como ele se comporta no dia a dia, não só na teoria.
Além do Android e do Windows utilizados nos testes, o GnuVPN também disponibiliza aplicativos para macOS, iOS e distribuições Linux como Ubuntu e Debian. Para quem utiliza mais de um dispositivo ao longo do dia, é uma vantagem poder manter a mesma conta em diferentes sistemas operacionais sem precisar recorrer a configurações manuais. Os aplicativos podem ser baixados diretamente na página oficial de download do serviço.
O que o GnuVPN acerta
Uma política de privacidade que diz “nada”
Muitas VPNs afirmam que não guardam registros, mas, ao ler as letras miúdas, ainda armazenam metadados — timestamps, volume de dados ou o IP de origem. A política do GnuVPN é incomum: segundo a política de privacidade da empresa, ela não coleta IPs, timestamps, consultas DNS nem metadados.
A empresa está registrada em Portugal e opera sob o GDPR, o que coloca essas alegações sob um quadro legal mais rigoroso do que países sem leis de proteção de dados. O serviço afirma que não coleta nada identificável e que, mesmo sob ordem judicial, não teria o que entregar.
Google Verified: o que significa de verdade?

Para usuários de Android, isso importa. O selo Google Verified significa que o aplicativo passou pelo processo de revisão da própria Google, focado em como o app lida com dados, permissões e conformidade com as políticas da loja.
Não é uma auditoria completa de segurança da infraestrutura de servidores, mas adiciona uma camada de confiança no nível do aplicativo. E não é um selo que aparece em qualquer VPN.
Escolha de protocolos: WireGuard, SoftEther, OpenVPN, IKEv2
Diferente de muitos concorrentes, o GnuVPN não limita você a um ou dois protocolos. São quatro opções disponíveis, cada uma com seus prós e contras.
O WireGuard é rápido, moderno e leve para a bateria — no Android, virou meu padrão. O celular não esquentava e o consumo de energia era quase imperceptível. Já o SoftEther disfarça o tráfego da VPN como HTTPS comum, sendo um salva-vidas em países como China, Irã ou Emirados Árabes, onde sistemas de inspeção profunda de pacotes podem bloquear protocolos tradicionais. O OpenVPN é o velho confiável: funciona em qualquer rede, mesmo nas mais complicadas. E o IKEv2 mantém a conexão estável ao alternar entre Wi-Fi e dados móveis — algo comum no dia a dia de quem sai de casa.
Eu esperava que o SoftEther deixasse tudo mais lento do que de fato deixou. Em casa, no Wi-Fi, a diferença para o WireGuard não foi dramática. O problema foi a bateria: com o SoftEther ativo, o consumo subiu de forma perceptível. Não é algo para deixar ligado o tempo todo.
Plano gratuito que não é capado
O plano gratuito do GnuVPN é honesto. Tem limites de velocidade e dados — downloads pesados não vão bem — mas para tarefas básicas como WhatsApp, e-mail e navegação, resolve.
O plano gratuito já oferece kill switch e acesso a todos os protocolos, o que não é tão comum. O plano pago se torna mais relevante para quem precisa de maior volume de dados e velocidades mais altas.
Performance sólida (sem números mirabolantes)
Sem ficar jogando números sintéticos, o uso real foi tranquilo tanto no Android quanto no PC. Páginas carregaram rápido, vídeos no YouTube não travaram, e alternar entre Wi-Fi e 5G não derrubou a conexão.

O WireGuard manteve o celular frio e a bateria durando o dia todo — algo que impressiona para uma VPN rodando em segundo plano. O kill switch funcionou como esperado nos dois dispositivos. Quando a VPN caiu (raro, mas acontece), o aparelho simplesmente ficou sem internet até a conexão ser restaurada. Sem vazamentos, sem sustos.
Pagamento com criptomoedas
Se você não quer associar cartão de crédito ou PayPal à assinatura de uma VPN, o GnuVPN aceita Bitcoin, USDT (TRC20), TRON e Litecoin. É um detalhe pequeno, mas para quem liga de verdade para privacidade, faz diferença.
Onde o GnuVPN deixa a desejar?
Nenhum serviço é perfeito. E o GnuVPN tem limitações reais.
Nenhuma auditoria independente dos servidores
Esse é o ponto fraco mais relevante. Não há informação pública sobre auditorias de segurança independentes da infraestrutura de servidores do GnuVPN. A política de privacidade é boa, e o selo Google Verified cobre o aplicativo Android, mas o backend não foi verificado por terceiros.
Para usuários casuais, talvez não faça diferença. Para quem lida com informações sensíveis ou tem alto nível de exigência em privacidade, é uma lacuna real.
Rede de servidores menor
O GnuVPN opera em cerca de 55 países. Existem serviços com mais localizações, mas número de servidores não é tudo. Qualidade e estabilidade da conexão importam tanto quanto quantidade. Durante meus testes, não tive problemas com desempenho ou confiabilidade dos servidores.
Marca jovem, histórico curto
A empresa por trás do serviço, a GNUAPP UNIPESSOAL LDA, não está no mercado há tanto tempo quanto outras marcas mais conhecidas. Não há uma década de histórico para avaliar. Para alguns, isso é um problema. Para outros, toda marca começa em algum lugar.
Para quem o GnuVPN faz sentido
O serviço faz sentido para usuários de Android que enxergam valor no selo Google Verified, para pessoas que levam privacidade a sério e querem uma política clara de “sem logs”, para viajantes que vão para países com restrições pesadas de internet (onde o SoftEther ajuda bastante) e para quem quer um plano gratuito funcional sem abrir mão de kill switch e escolha de protocolos.
Por outro lado, não faz sentido para quem precisa de servidores em mais de cem países ou IPs dedicados, nem para quem exige uma auditoria independente de servidores antes de confiar em qualquer serviço.
Preços
No momento da publicação, a assinatura mensal custa aproximadamente US$ 6, enquanto o plano anual sai por cerca de US$ 50. Como acontece com a maioria dos serviços de assinatura, os valores podem variar ao longo do tempo e de acordo com a região. O GnuVPN também aceita pagamentos em criptomoedas, incluindo Bitcoin, USDT (TRC20), TRON e Litecoin.
Veredito final
O GnuVPN não tenta competir apenas pelo tamanho da rede de servidores ou pela quantidade de recursos extras. A proposta parece ser outra: oferecer uma experiência focada em privacidade, com uma política de “sem logs” clara, suporte a diferentes protocolos e um aplicativo Android que transmite confiança ao usuário comum.
O selo Google Verified não substitui uma auditoria independente da infraestrutura, mas representa um ponto positivo para quem utiliza Android. O plano gratuito também entrega uma experiência surpreendentemente completa, enquanto opções como WireGuard e SoftEther ajudam a atender perfis de uso bastante diferentes.
A ausência de uma auditoria independente dos servidores continua sendo a principal ressalva. Ainda assim, durante os testes, o serviço se mostrou estável, simples de usar e consistente no que se propõe a fazer.
Para quem prioriza privacidade, valoriza flexibilidade na escolha de protocolos e não precisa de uma rede gigantesca de servidores, o GnuVPN surge como uma alternativa interessante a nomes mais conhecidos do mercado.
Como em qualquer serviço de privacidade, vale a pena começar pelo plano gratuito, testar o desempenho na sua rotina e decidir se os recursos oferecidos atendem às suas necessidades.