
- Ações judiciais, inadimplência no Fies e fatores estruturais ampliam incertezas no médio prazo.
- Tesouro alerta para R$ 5,1 trilhões em riscos fiscais capazes de pressionar a dívida pública.
- Nove estatais, incluindo os Correios, podem exigir socorro direto da União.
O Tesouro Nacional acendeu um sinal vermelho ao divulgar que a União pode ser obrigada a socorrer nove estatais em situação financeira delicada, incluindo os Correios, que acumulam prejuízos expressivos e negociam um empréstimo de R$ 20 bilhões para continuar operando. O alerta integra o documento anual de riscos fiscais, que estima exposição total de R$ 5,1 trilhões em possíveis pressões sobre as contas públicas.
Mesmo com uma queda de R$ 789,7 bilhões em relação ao ano anterior, o número ainda indica uma vulnerabilidade estrutural que pode elevar a dívida pública, já projetada para subir nos próximos anos. O diagnóstico reforça a deterioração do quadro fiscal e adiciona mais incerteza ao cenário de médio prazo.
Estatais em risco ampliam pressão sobre caixa do governo
O relatório identifica que nove estatais não financeiras podem precisar de apoio emergencial caso não consigam gerar caixa. Entre elas, os Correios, que acumulam R$ 4,3 bilhões de prejuízo em 2025. Apenas no segundo trimestre, o rombo chegou a R$ 2,6 bilhões, cinco vezes mais que no mesmo período do ano anterior. A estatal ainda tenta um empréstimo de R$ 20 bilhões para recuperar fôlego.
Além dos Correios, empresas como Casa da Moeda, Infraero, várias Companhias Docas e a ENBPar mostram fragilidade operacional. A Infraero, por exemplo, teve queda de 71% na receita líquida, enquanto a ENBPar enfrenta risco elevado por conta das necessidades de capital da Eletronuclear, especialmente com o impasse de Angra 3.
Se o governo decidir intervir para garantir a continuidade dos serviços, haverá impacto direto no endividamento. Conforme o Tesouro, esses riscos se somam a ações judiciais, inadimplência em programas de crédito e garantias concedidas, formando um mosaico que pode obrigar a União a gastar muito mais do que o previsto no Orçamento.
Dívida pública sobe e cenário pessimista aponta risco acima de 97% do PIB
A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) deve chegar a 79% do PIB até o fim de 2025. A projeção mostra avanço contínuo até 84,2% em 2028, com estabilização apenas após 2029. Embora o cenário base já seja desafiador, o cenário pessimista é ainda mais crítico: caso o país enfrente juros altos e baixo crescimento, a dívida pode alcançar 97,8% do PIB até 2035.
Esse movimento pressiona a confiança dos investidores e reduz a capacidade do governo de ampliar investimentos ou implementar políticas públicas. A tendência de alta reflete não apenas os riscos imediatos, mas também obrigações futuras que se acumulam e ampliam a rigidez do orçamento.
Ao mesmo tempo, essas estimativas reforçam a dependência do governo por um cenário macroeconômico mais favorável e por reformas que melhorem a trajetória fiscal. Sem isso, o impacto dos riscos mapeados tende a crescer, alimentando ainda mais o aumento da dívida.
Ações judiciais, Fies e mudanças estruturais elevam incertezas fiscais
As ações judiciais contra a União somam R$ 2,6 trilhões, sendo R$ 593 bilhões classificados como perdas prováveis. Esses processos, pagos por meio de precatórios e RPVs, representaram R$ 151,9 bilhões apenas em 2023. A conta continua alta e permanece como uma das maiores fontes de pressão futura.
Outro ponto crítico é a inadimplência do Fies, que chega a 73% nos contratos antigos, com saldo devedor de R$ 90,8 bilhões. A perda esperada ultrapassa R$ 53 bilhões, mesmo com parte do risco mitigado por garantias. Embora o Novo Fies tenha reduzido parte da exposição, o passivo acumulado ainda pesa sobre o Tesouro.
Além disso, fatores estruturais, como o envelhecimento populacional e o impacto crescente de eventos climáticos extremos, pressionam o orçamento no longo prazo. Até 2035, as despesas com saúde devem subir R$ 16,3 bilhões, enquanto a prevenção de desastres tende a exigir recursos cada vez maiores.