
Um choque nos preços do petróleo provocado pelo conflito no Oriente Médio pode elevar significativamente a inflação brasileira e criar novos desafios para a política monetária, segundo estudo do Departamento de Pesquisas Econômicas (DPEc) do Banco Daycoval.
Alta da inflação
A análise indica que, caso o barril de petróleo se estabilize em torno de US$ 80, as projeções de inflação sobem de 3,4% para 5,0% em 2026 e de 3,2% para 3,7% no terceiro trimestre de 2027, horizonte relevante para a política monetária. O impacto ocorreria principalmente por meio de combustíveis no curto prazo e, posteriormente, via preços de serviços.
O cenário surge em um momento delicado para o Banco Central. Na última reunião, o Copom manteve a taxa Selic em 15% ao ano e sinalizou que poderia iniciar um ciclo de cortes já em março, diante de surpresas benignas na inflação corrente. Contudo, a disparada do petróleo após a escalada do conflito no Oriente Médio elevou as incertezas sobre a trajetória de preços à frente.
O barril do petróleo saltou de cerca de US$ 60 no início de janeiro para acima de US$ 100 no começo de março, pressionando expectativas de inflação e reacendendo dúvidas sobre a continuidade do processo de desinflação no país.
Segundo o estudo, o principal canal de transmissão no curto prazo é o aumento dos preços administrados, sobretudo combustíveis como gasolina. O modelo assume repasse integral da alta do petróleo, o que pode ampliar o impacto no IPCA de 2026.
No médio prazo, porém, o efeito mais relevante ocorre nos preços de serviços. Com a inflação total mais elevada, a dinâmica inflacionária tende a se propagar para esse segmento por meio de mecanismos de inércia, elevando as projeções desse grupo de 4,5% para 6,4% em 2026 e de 3,7% para 5,8% no horizonte relevante de política monetária.
Produtos e bens industriais
O choque também pode afetar outros componentes do índice. Bens industriais tendem a sofrer impacto relevante devido à maior dependência de energia no processo produtivo, enquanto alimentos devem registrar efeitos mais moderados, já que o conflito atual não implica, até o momento, restrições diretas relevantes à oferta global de produtos agrícolas.
Mesmo que o impacto sobre núcleos de inflação seja mais limitado, o estudo avalia que uma inflação mais alta aumenta os desafios para o Banco Central, especialmente em um ambiente de economia aquecida, expectativas desancoradas e ano eleitoral, fatores que podem ampliar a volatilidade cambial.
O relatório destaca, porém, que a trajetória futura do petróleo é mais importante que o tamanho inicial do choque. Caso o barril suba para US$ 80 e retorne ao nível pré-conflito após cerca de seis meses, os efeitos inflacionários de curto prazo permanecem elevados, mas o impacto sobre o horizonte relevante pode ser limitado — e, dependendo da velocidade de queda dos preços, até gerar efeito baixista na projeção de inflação mais à frente.