
Enquanto o presidente argentino Javier Milei celebra o segundo ano consecutivo de superávit fiscal, superando metas acordadas com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Brasil, sob o comando de Luiz Inácio Lula da Silva, enfrenta déficits crescentes e pressões sobre a dívida pública.
Essa divergência reflete abordagens opostas: austeridade radical na Argentina versus expansão de gastos sociais e tentativas de contenção no Brasil. A seguir, analisamos os cenários com base em dados oficiais e projeções recentes.
Argentina: Do caos à estabilidade com “déficit zero”
Desde que assumiu a presidência em dezembro de 2023, Javier Milei implementou um programa de reformas econômicas agressivas, apelidado de “choque fiscal“, com foco em cortes drásticos de gastos públicos, desregulamentação e redução de impostos. Os resultados fiscais de 2025 confirmam o sucesso inicial dessa estratégia: o país registrou um superávit primário equivalente a 1,4% do PIB e um superávit financeiro de 0,2% do PIB.
Esse é o segundo ano consecutivo de saldos positivos, algo não visto desde 2008, e foi alcançado mesmo após o pagamento integral dos serviços da dívida pública. O superávit superou a meta acordada com o FMI. Os gastos primários caíram significativamente em termos reais em comparação a 2023, mas programas sociais como o Auxílio Universal por Filho (AUH) e o Cartão Alimentar aumentaram em termos reais, priorizando os setores vulneráveis.
Outros indicadores reforçam a narrativa de recuperação: a inflação anual caiu de 211% em 2023 para 31,5% em 2025, o menor nível em oito anos. A pobreza, que atingiu 53% no início do mandato, recuou para cerca de 27,5% no terceiro trimestre de 2025. O PIB cresceu 5,8% em 2025, impulsionado por exportações e investimentos estrangeiros, após a remoção de controles cambiais. O governo destaca que o superávit foi obtido após cortes de impostos equivalentes a mais de 2,5% do PIB, incluindo reduções em direitos de exportação e importação.
Brasil: déficits persistentes e a batalha contra o “déficit fiscal”
No Brasil, o terceiro mandato de Lula (iniciado em janeiro de 2023) prioriza investimentos sociais e estímulos econômicos, mas enfrenta críticas por déficits fiscais crescentes. Em 2025, o déficit nominal (incluindo juros da dívida) alcançou cerca de 9,5% do PIB, um salto significativo em relação ao início do mandato. A dívida pública bruta subiu para 76,1% do PIB no final de 2024, com projeções indicando níveis ainda mais elevados nos próximos anos.
Os déficits primários (excluindo juros) persistem: valores expressivos em 2023 e 2024, com projeções de novo déficit em 2026, apesar da meta oficial de superávit. O governo adotou um novo arcabouço fiscal em 2023, limitando o crescimento de gastos, mas revisões recentes adiaram metas, com congelamentos orçamentários para tentar cumprir as regras.
Lula tem criticado o foco excessivo em “déficit fiscal e corte de orçamento”, defendendo gastos sociais como Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida. No entanto, o aumento da dívida é atribuído a juros altos (Selic em patamares elevados) e despesas obrigatórias, que representam a maior parte do orçamento. Estatais federais também acumularam déficits expressivos, apresentando rombos recordes sob Lula.
Além disso, a inflação fechou 2025 em torno de 4,26% e o real sofreu forte desvalorização em 2024, agravando os custos da dívida.