
O recente desempenho positivo da Bolsa brasileira, com o Ibovespa acumulando alta de 34% em 2025 e mais 13,74% em janeiro de 2026, não reflete otimismo genuíno com a economia do País, mas sim um movimento global de diversificação de capitais que buscam alternativas ao mercado americano. Essa é a análise de Luis Stuhlberger, gestor do fundo Verde Asset Management, um dos mais respeitados do setor.
Por que o dinheiro está saindo dos EUA?
De acordo com Stuhlberger, os investidores estrangeiros detêm cerca de US$ 36 trilhões em dívida e ações nos Estados Unidos. Mesmo uma saída modesta, como 3% desse montante, poderia causar impactos significativos em mercados menores como o brasileiro.
No entanto, o que se observa não é uma fuga maciça de Treasuries e equities americanos, mas uma redução nas entradas de capital nos EUA, redirecionando fluxos para ativos globais – incluindo o Brasil. Esse “caminhão desgovernado” em busca de oportunidades internacionais, como descreve o gestor, supera em importância as discussões eleitorais locais, como a possibilidade de um “Lula 4”.
Trump e a desvalorização do dólar impulsionam o real
O contexto global é impulsionado pela agenda de Donald Trump, que tem trabalhado ativamente para desvalorizar o dólar americano, o que beneficia moedas de mercados emergentes como o real. Stuhlberger prevê uma queda adicional do dólar em 2026, estimando seu valor justo em R$ 4,40 – cerca de 25% abaixo da cotação atual de R$ 5,25.
Esse modelo de fair value da Verde considera variáveis como o dólar contra uma cesta de moedas emergentes, diferencial de juros entre Selic e Fed Funds, índice de commodities e o CDS do Brasil.
Em termos de posicionamento, o fundo Verde aumentou opções de compra (calls) no real, mantém posições longas em uma cesta de moedas contra o dólar e em ouro, e usa hedges como opções de dólar para janeiro de 2028 para se proteger contra restrições de fluxo de capitais ou cenários adversos.
Riscos internos seguem no radar
Apesar do otimismo nos fluxos, Stuhlberger alerta para riscos internos. O modelo fiscal brasileiro, com receitas em 37,8% do PIB e gastos em 38,5%, é insustentável para um país emergente com PIB per capita de US$ 12 mil. Sem reformas, a dívida pública pode superar 80% do PIB até o fim do mandato de Lula, impulsionada por uma expansão fiscal anual de 5% em termos reais e um impulso fiscal e de crédito de R$ 180 bilhões em 2024. O gestor vê a Bolsa como tendo “subido demais”, desencorajando novas posições, embora mantenha exposição sem alterações.
Bolsa já subiu demais, mas o fluxo ainda sustenta
A Bolsa brasileira é vista como tendo “subido demais”, o que desestimula novas entradas em larga escala. Mesmo assim, o movimento de capital externo continua sustentando os preços, com investidores apostando que um quarto mandato de Lula não agravaria significativamente o cenário atual.
Conclusão: alta global, não brasileira
Stuhlberger observa que o real tende a convergir para o fair value em governos bem avaliados, como os de Temer e Bolsonaro, mas não prevê isso imediatamente no atual contexto. A alta da Bolsa, portanto, é mais um reflexo de dinâmicas globais do que de confiança no Brasil, com estrangeiros apostando que um eventual quarto mandato de Lula não agravaria a situação atual.