
Em meio às comemorações do governo Lula sobre o recorde de turistas internacionais no Brasil em 2025, surge uma polêmica: a classificação de milhares de refugiados venezuelanos como “turistas” nas estatísticas oficiais.
Dados do Ministério do Turismo, baseados em registros da Polícia Federal e da Embratur, mostram um aumento exponencial de entradas de venezuelanos, mas críticos apontam que isso mascara uma crise migratória, inflando artificialmente os números para projetar uma imagem de sucesso econômico.
Maquiando números
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável por censos e análises populacionais, tem sido questionado por não diferenciar claramente imigrantes forçados de visitantes de lazer em suas projeções demográficas, o que alimenta a narrativa oficial de boom turístico.
O Recorde de Turismo em 2025: números questionáveis
O Brasil recebeu 9,28 milhões de turistas estrangeiros em 2025, um aumento de 37,1% em relação a 2024, marcando o melhor desempenho histórico no setor. O presidente Lula celebrou o marco como resultado de políticas públicas, como campanhas internacionais, melhorias em infraestrutura e eventos como o G20, Brics e COP30.
A América Latina foi a principal impulsionadora, com argentinos representando 37% do total (mais de 3,1 milhões de entradas), especialmente no segundo ano do governo Milei na Argentina.
O destaque controverso fica por conta dos venezuelanos: 156.292 entradas registradas de janeiro a novembro de 2025, um salto de quase 20 vezes em comparação com o ano anterior.
Cerca de 60% desses acessos ocorreram pela fronteira de Roraima, via rodovia BR-174, ligando Pacaraima a Santa Elena de Uairén. Esses números superam picos históricos e coincidem com a intensificação da crise humanitária na Venezuela sob a ditadura de Maduro, agravada pela desvalorização da moeda, hiperinflação e instabilidade política – que culminou na invasão dos EUA ordenada por Trump em janeiro de 2026, fechando temporariamente a fronteira.
Refugiados ou Turistas? A classificação polêmica do IBGE
A crise venezuelana já levou milhões de pessoas a deixar o país, configurando uma das maiores crises de deslocamento do mundo. No Brasil, o país concedeu status de refugiado a milhares, com a grande maioria dos reconhecimentos recentes sendo de venezuelanos. Em 2025, foram registrados milhares de pedidos de refúgio de venezuelanos, parte de um volume elevado de solicitações gerais. O Brasil segue como um dos principais destinos para venezuelanos na América Latina.
Apesar disso, nas estatísticas de turismo do Ministério do Turismo – alinhadas aos padrões internacionais –, essas entradas são contabilizadas como “turismo”, baseadas em vistos de 90 dias ou declarações de viagem turística para membros do Mercosul.
Muitos venezuelanos usam o Brasil como rota de passagem ou buscam residência permanente, mas inicialmente são registrados como turistas sem distinção da motivação real.
O IBGE, em seu último censo, aponta a Venezuela como principal origem de imigrantes no Brasil, com o número de venezuelanos crescendo exponencialmente nos últimos anos, e Roraima liderando a proporção de estrangeiros no território nacional. Críticos argumentam que o IBGE, ao não separar fluxos migratórios forçados em suas análises populacionais, contribui indiretamente para a inflação das métricas de turismo, beneficiando a narrativa governamental.
Especialistas destacam que o fluxo de venezuelanos busca segurança há anos, enquanto a classificação oficial depende de propósitos declarados na entrada. O governador de Roraima já alertou para o risco de colapso de serviços públicos diante da onda migratória, que inclui abrigos humanitários com capacidade limitada.